Costurando os Pontos

28 11 2009

Cena do programa Ponto Brasil - Cidades

Hoje (sábado), às 23h45, a TV Brasil vai transmitir o segundo programa da faixa Ponto Brasil, uma experiência interessante em matéria de produção coletiva para a TV. Os pequenos ensaios, ficções e documentários que compõem cada um dos 14 programas temáticos foram produzidos em regime colaborativo por cerca de 100 Pontos de Cultura e coletivos audiovisuais em 15 estados.

Durante 18 semanas de gravação este ano, aproximadamente 400 participantes realizaram 130 vídeos. Desde os primeiros argumentos até a edição, cada vídeo é assinado por uma coleção de grupos, que se reuniu sob a orquestração da equipe fixa do Ponto Brasil, dirigida por Leandro Saraiva. Quem quiser verificar como funciona esse método de criação de conteúdo online pode acessar o site do Ponto Brasil.

Na prática, é a pequena revolução operada pelos Pontos de Cultura que chega à TV. Com qualidade audiovisual razoavelmente sofisticada, os programas tratam de cidadania, identidade, relacionamentos, cotidiano etc. No primeiro, que pode ser visto aqui, o tema foi a cidade. O resultado me pareceu irregular, variando entre a ingênua caminhada de uma cozinheira do interior por Belo Horizonte, uma deplorável ficção sobre solidão em Londrina, uma energética argumentação sobre quilombos urbanos em São Paulo e dois caprichados ensaios poéticos sobre fluxos da cidade em Goiânia e monumentos paulistas. Em alguns momentos da edição, ronda o risco da semelhança com a estética da propaganda oficial.

Mas é preciso ver um pouco mais para formar uma apreciação. O tema do programa de hoje é “Ossos e Ofícios”. Vale a pena conferir, nem que seja pela imprevisibilidade do que virá e pela aragem fresca que vem dessa maneira de reunir impulsos criativos dos quatro cantos do Brasil.           





Filmes de gente

26 11 2009

Um dos grandes eventos que privilegiam o cinema documental no Rio, a Mostra Internacional do Filme Etnográfico abre hoje à noite sua 14ª (!) edição. A morte de Lévi-Strauss, a restauração de mais filmes de Adrian Cowell, a consagração de Vincent Carelli com Corumbiara e o lançamento de um novo edital do Etnodoc fazem a moldura do evento.

Filme etnográfico é basicamente filme sobre gente. As fronteiras do filme etnográfico (se as há) dentro do conjunto do cinema do real serão objeto de uma mesa-redonda que reunirá Rahul Roy, diretor do Festival Etnográfico de Nova Délhi, o antropólogo Marco Antonio Gonçalves e este que vos fala. Será na Caixa Cultural, no dia 4/12, às 14 horas.

Também na Caixa, Vincent Carelli vai ministrar um workshop (dias 27 e 28). A cineasta indiana Saba Dewan, mulher de Rahul Roy, apresentará pessoalmente seu novo filme, Naach – The Dance. Entre os cerca de 100 filmes programados, haverá uma sessão-homenagem ao Mestre Vitalino e um programa dedicado ao filme etnográfico cubano.        

Veja a programação completa no site do festival.

A seguir, alguns destaques que já tive a oportunidade de conhecer:

Mãe e filha em "Naach - The Dance"

Naach – The Dance. Saba Dewan capta sonhos e contradições de mulheres que estrelam um espetáculo de dança erótica (sem nudez) numa feira de gado na Índia. Há personagens fascinantes e uma atmosfera cheia de insinuações, coisas razoavelmente aproveitadas pelo filme. Raul Roy é produtor e cinegrafista.   

Mãe e filho em "Um Lugar ao Sol"

Um Lugar ao Sol. A vida em oito coberturas do Rio, São Paulo e Recife serviu como excelente porta de entrada para Gabriel Mascaro flagrar o pensamento cru de certa elite brasileira. Alguns depoimentos me deixaram boquiaberto com o grau de arrogância, isolacionismo, demagogia social e deslumbramento pequeno-burguês. Enfim, a eternização do sentimento de casa-grande.

Negros. Ao reunir, numa colagem cronológica, imagens oficiais e particulares da vida em Salvador ao longo de aproximadamente 80 anos, Monica Simões nos oferece uma avaliação otimista: os negros baianos passaram de figurantes serviçais ou objetos de entretenimento nos filmes dos brancos a protagonistas de seus próprios vídeos. Produzido para o DOCTV.

O Areal. Já abordado aqui no blog, esse doc rodado pelo chileno Sebastián Sepúlveda no interior do Pará venceu a recente Mostra Amazônica do Filme Etnográfico. Mostra a capacidade de perpetuação e continuidade das mitologias populares a despeito do progresso tecnológico e dos trânsitos religiosos.     

O Glorioso – São Sebastião de Cachoeira do Arari. Interessante exposição de uma festa religiosa da Ilha de Marajó pelo diretor canadense Gavin Andrews. A partir da festa (10 a 20 de janeiro) e de sua longa preparação desde seis meses antes, o filme faz uma etnografia da culinária, das lutas corporais e do sincretismo religioso típicos da cultura marajoara.

Corumbiara. O vencedor do Festival de Gramado, do Fica e do É Tudo Verdade é um filme poderoso, que vale como súmula da longa convivência de Vincent Carelli com as populações indígenas brasileiras. Uma convivência ameaçada por desconfianças, truculências e a eterna sensação de estar entre dois fogos: dos índios e de seus exterminadores.

Apartamento 608 – Coutinho.doc. Como diretora de produção de Edifício Master, Beth Formaggini também registrou os bastidores para esse que é o primeiro autêntico making of de um filme de Eduardo Coutinho. Não há melhor maneira de conhecer na intimidade o trabalho do diretor com sua equipe, os dilemas e a proverbial “insegurança criativa” com que o cineasta se lança nos seus projetos.  

A Arquitetura do Corpo. Uma belíssima aproximação do cinema ao universo da dança, destacando o que existe de árduo e doloroso no trabalho dos dançarinos. Curta premiadíssimo, imperdível para quem ainda não viu.      

Nollywood Babylon. Ligeira mas atraente introdução ao cinema nigeriano, hoje o terceiro maior polo produtor do mundo. Ben Addelman e Samir Mallal passam em revista essa história desde a época da colonização até a febre atual, sustentada por comerciantes de produtos eletrônicos e uma exótica aliança com líderes evangélicos. Um fenômeno sociológico e antropológico de primeira.

A Propos de Tristes Tropiques. Em programa especial, o festival vai exibir essa revisita de Jorge Bodanzky a Lévi-Strauss e a tribos que este visitou nos anos 1930. O filme, de 1990, sublinha a importância do Brasil na obra do antropólogo francês e dos filmes que sua mulher Dina realizou entre 1935 e 38.

Falamos de Antonio Campos. Uma poética e emotiva evocação do cineasta lusitano, morto em 1999, um outsider que dividiu sua carreira entre a ficção e o doc etnográfico. Com o mérito de nos mergulhar fartamente numa amostragem das belas imagens criadas por Campos, algumas raríssimas mesmo para os portugueses.

Gente de Fajãs. O mérito maior desse recatado doc de João Antonio Saraiva é mostrar os Açores. Ou melhor, uma das ilhas do arquipélago, a de São Jorge. Mais especificamente ainda, as fajãs, pedaços de terra que são ilhas dentro da ilha. Gente em paz com o mundo e, aparentemente, consigo mesma. E pronto.





A música da esperança

25 11 2009

Chegou ao DVD o doc Contratempo, de Malu Mader e Mini Kerti. Malu é mais uma atriz que cruzou a linha da cena por simples paixão por um assunto. Como fizeram Patricia Pillar com Waldick Soriano e Letícia Sabatella com os índios Krahô (Hotxuá). De certa forma, essas iniciativas vêm suprir lacunas de criação e compromisso deixadas pelo estelato na frente das câmeras.

Contratempo é um bonito trabalho que não se perde no mero elogio do projeto social. Ao acompanhar alguns jovens de origem humilde na tentativa de superar suas limitações através da música, o doc põe em foco uma dinâmica entre vários mundos que não se compõe apenas de histórias de sucesso.

Leia aqui a resenha que Felipe Messina escreveu para o DocBlog quando o filme passou no Festival do Rio de 2008.

Nos extras do DVD, um material adicional mostra os personagens do filme falando sobre si mesmos e sobre música.





Fenelon vem aí restaurado

24 11 2009

Amanhã (quarta-feira), na Casa de Rui Barbosa (Rio), às 14h30, o pesquisador Carlos Roberto de Souza, da Cinemateca Brasileira, vai apresentar sua tese sobre a preservação de filmes no país. A cinemateca paulista tem sido o principal laboratório dessa atividade, o que não basta para disfarçar a deficiência de uma política pública voltada para a restauração e preservação do cinema brasileiro.

Nesse contexto, o trabalho de formiguinha feito por algumas pequenas instituições e famílias têm feito uma grande diferença. Alice Gonzaga, Patricia Civelli, Myrna Brandão (Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e as famílias de Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros, estão na linha de frente carioca desse bom combate. Os festivais do Rio e de Brasília puderam apreciar este ano a cópia restaurada pelo CPCB de A Hora da Estrela, de Suzana Amaral.     

Agora chega mais uma notícia auspiciosa, como tantas, patrocinada pelo Programa Petrobrás Cultural. Até dezembro, parte da obra do diretor, produtor, roteirista e técnico de som Moacyr Fenelon terá sua restauração concluída. O projeto do Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro (IPMCB), iniciado em 2006, foi realizado por iniciativa de Alice Gonzaga, que recebeu dois prêmios recentemente por seu trabalho de preservação, um da Academia Brasileira de Cinema e outro do FestNatal 2009. São cinco filmes produzidos e dirigidos na fase final da carreira do cineasta (de 1948 a 1951): Obrigado Doutor, Estou Aí?, Poeira de Estrelas, Dominó Negro e A Inconveniência de Ser Esposa. Alguns anos atrás, o CPCB salvou da destruição um clássico do diretor, Tudo Azul. 

Fenelon foi o primeiro grande ativista político da classe cinematográfica, incentivou o cinema independente e inspirou a geração nacionalista dos anos 1950-60. O período final de sua carreira nunca foi avaliado na prática. A reunião desses cinco títulos pretende compreender e divulgar sua atuação como produtor, diretor e seu projeto de um cinema que ampliasse as estratégias de produção ligadas à chanchada. Os filmes recuperados são documentos históricos da era de ouro do filme popular brasileiro. São, também, registros da nossa cultura do pós segunda guerra mundial – momento de profundas mudanças na estrutura social brasileira. As cópias restauradas serão exibidas em um lançamento realizado em parceria com a Petrobrás e em seguida vão circular em festivais e mostras pelo país.

(Parte deste texto foi transcrito do release do IPMCB)

Update: No Festival de Brasília foi anunciado ontem o início da restauração de O Leão de Sete Cabeças, de Glauber Rocha, numa parceria do Governo da Bahia, Associação Baiana de Cinema e Vídeo – ABCV, Tempo Glauber, Cinemateca Brasileira e Estudios Mega.





Vigo, novamente em vigor

23 11 2009

Há muito não se falava em Jean Vigo por aqui. Lá se foi o tempo das cinematecas e cineclubes onde Zero em Comportamento, L’Atalante e A Propos de Nice eram programas obrigatórios, lufadas inspiradoras para o cinema de invenção. Mesmo o famoso livro de Paulo Emílio Salles Gomes, escrito na década de 1950 e saudado como “exemplar” por ninguém menos que André Bazin, andava há muito desaparecido das livrarias.

Tudo isso foi corrigido de uma vez só pela editora Cosacnaify com o lançamento de uma caixa contendo dois livros e dois DVDs. Jean Vigo, o livro, é o primeiro e definitivo estudo da vida e da obra do cineasta por Paulo Emílio. São 500 páginas de textos e fotos. Uma empreitada que serve de modelo para quem quer enxergar a obra de um artista para além do seu volume. Vigo viveu apenas 29 anos (1905-1934) e não fez mais que quatro filmes. Mesmo assim, o livro do crítico brasileiro ajudou a colocá-lo no panteão dos grandes autores do cinema.

O segundo livro, Vigo, Vulgo Almereyda, é um perfil do pai de Vigo, conhecido como Miguel Almereyda (1883-1917, portanto também de vida curta). Foi durante a pesquisa sobre o cineasta que Paulo Emílio acabou se interessando também pela vida do seu pai, um militante anarquista e socialista cuja importância na formação do filho foi maior que na média dos pais.

A empreitada editorial, coordenada por Carlos Augusto Calil, se completa com a íntegra da obra cinematográfica de Vigo em dois DVDs. Os extras são igualmente preciosos: além das tradicionais fotos e textos, incluem o doc sobre Vigo na série Cineastes de Notre Temps e entrevistas com Calil, Ismail Xavier, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles e François Truffaut.

Resumindo: Vigo está novamente em vigor no Brasil.           





Um mural na cabeça de uma agulha

22 11 2009

Peço licença hoje para um pouco de orgulho pessoal. Transcrevo abaixo um comentário que recebi em forma de e-mail do crítico Ely Azeredo a respeito do meu programa de TV sobre Jurandyr Noronha:

Caro Carlinhos,

Um mural na cabeça de uma agulha. Foi o que pensei ao ver Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos.
 
Revendo, fico impressionado em dobro. 
 
Primeiro, como Jurandyr conseguiu – além de tudo o que a vida exige do dia-a-dia (a “burocracia” do sobreviver) - realizar tanta coisa em uma sucessão de terrenos difíceis, como o velho INCE (em que tudo ficava à sombra de Humberto Mauro) e o INC dos primeiros tempos, tão dependente de magros orçamentos etc.  Continue lendo





Niterói respira cinema

20 11 2009

Começa hoje (sexta) a oitava edição do Araribóia Cine-Festival de Niterói. À frente, como sempre, a dinâmica e queridíssima Tetê Mattos (atenção, não somos da mesma família). O Araribóia leva para o outro lado da baía uma mostra competitiva e uma informativa de curtas centrados no tema “Retratos”. Confira a programação no site do festival.

Como todo ano, é homenageado um cineasta que tenha alguma relação com a cidade. Dessa vez, a honraria cabe a Ricardo Miranda, com uma seleção de filmes dirigidos e montados por ele. Destaque para o curta inédito Palavra Exata.

A pedido de Tetê, escrevi o seguinte texto sobre Ricardo Miranda para o jornal do festival:

Ricardo Miranda, afeto e invenção

Esta edição do Arariboia Cine presta homenagem a Ricardo Miranda e apresenta a estreia de seu último filme, Palavra Exata. No centro desse curta está o irmão de Ricardo, o artista plástico Ronaldo Miranda. Na verdade, estão os dois, já que as memórias do cineasta se imbricam às coisas do pintor, o irmão mais velho que teve papel importante na formação de Ricardo.

Palavra Exata é apenas o último – e talvez o mais explícito – opus de uma obra nutrida pelo afeto. Esse é o caminho preferido das criações de Ricardo Miranda. O afeto é que o leva a interessar-se pelo pensamento e a obra de gente como Paulo César Saraceni (A Etnografia da Amizade), Luiz Rosemberg Filho (Bricolage), Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, José Mojica Marins etc. Ricardo precisa imantar-se afetivamente para adquirir a liberdade de tocar na vida e na obra de quem quer que seja. Continue lendo





Vertigens capturadas

19 11 2009

São Paulo está vendo uma intensa colaboração entre o grupo Teatro da Vertigem e o documentarista e dramaturgo Evaldo Mocarzel. Na última Mostra Internacional de Cinema de SP, o público tomou contato com duas versões de BR-3: um registro da épica montagem homônima do Vertigem nas águas e margens do Tietê, e uma investigação documental da criação do espetáculo. Atualmente, Evaldo está escrevendo com Sérgio Pires a dramaturgia e concebendo o visagismo audiovisual do novo trabalho do grupo; Kastelo, baseado em Kafka, será encenado em andaimes do lado de fora do Sesc Paulista. A estreia será em janeiro de 2010.     

Em abril último, o cineasta havia se juntado mais uma vez aos atores do Vertigem para documentar o inusitado processo de um exercício cênico numa passagem subterrânea há 10 anos abandonada no centro de SP. A Última Palavra é a Penúltima foi uma criação conjunta do Teatro da Vertigem com os grupos convidados Zikzira de Teatro Físico (Minas/Londres) e LOT – La Otra Orilla (Lima, Peru). O público sentava-se em vitrines laterais, como produtos, enquanto os atores e transeuntes trafegavam pelo corredor da passagem. A proposta era intervir no fluxo urbano com ações teatrais sobre o cansaço e o esgotamento das formas de olhar numa cidade massiva e sem horizonte como São Paulo. Na base de tudo, o texto O Esgotado, do filósofo Gilles Deleuze. Continue lendo





Cine-Profecias

19 11 2009





Novas salas. Novos conceitos?

18 11 2009

A fim de enriquecer o debate sobre o projeto Cinema da Cidade, com que o Minc e a Ancine pretendem revitalizar a exibição em pequenos municípios, o cineasta José Carlos Asbeg escreveu o texto abaixo. Reproduzo aqui por concordar com todos os pontos levantados, exceto com a generalização anti-hollywoodiana do ponto 03.

Cinema e consciência

José Carlos Asbeg      

Se os olhos são a janela da alma, o cinema é a janela da consciência. Uma sala de cinema é como um livro, um portal para um mundo novo de compreensões. Criar cinemas é criar espaços de consciência desde as coisas mais banais até as observações mais complexas da vida, do nosso cotidiano, do nosso país, possibilidades de percepção do mundo, crescimento humano.

Quando a sala escurece, o filme nos ilumina. A experiência coletiva de ir ao cinema é um dos rituais culturais mais marcantes de todo o século XX, o século de consolidação da imagem como o mais poderoso instrumento de informação.

A proposta governamental de novas salas de exibição por todo o país, em cidades que tenham entre vinte mil e cem mil habitantes é um primeiro esforço para levar a informação e a cultura cinematográfica a milhões de excluídos. Que o Brasil tem um déficit alarmante de salas de cinema é sabido e lamentado há anos. Há anos, também, vemos cinemas de rua virar igrejas ou mercadinhos de bairros (na verdade, não há quase diferença entre um e outro). Os cinemas hoje praticamente se escondem em centros comerciais. Portanto,  a notícia é animadora.

Mas, traz vários pontos de interrogação, É preciso desembrulhar o pacote da ação ministerial, que ainda deixa margem a dúvidas. Ao lado da boa intenção muitas vezes vem a ação que pode acabar dando em nada. Continue lendo





Críticos –> cineastas –> críticos

16 11 2009

No Meu Lugar é um filme que se define melhor pelo que não quer ser. Não quer ser filme de gênero, nem filme de arte. Não quer ser sociológico, nem político. Não quer ser um filme “representado”, nem experimental, nem linear. Não quer ser óbvio, mas também não quer ser obscuro. É um filme empenhado em fugir de fórmulas e definições. Para isso, cada inflexão dos atores e cada movimento de câmera parece obedecer a uma rigorosa consciência sobre construção do plano e efeito da montagem.

O resultado é a hegemonia do cálculo em detrimento do pathos. Um filme anódino no seu esforço para escapar a qualquer armadilha. Um filme onde até as qualidades parecem conspirar contra: o rigor vira rigidez, a contenção vira frieza, a desdramatização vira esvaziamento.

O fato de seu diretor, Eduardo Valente, ser um dos fundadores das revistas eletrônicas Contracampo e Cinética não transforma necessariamente o filme num manifesto audiovisual da chamada “nova crítica”, da qual ele é um dos expoentes. Mas, inevitavelmente, suscita uma indagação: será esse cinema autopoliciado o que almejam os críticos dessa geração?  Continue lendo





Vai um stop motion?

15 11 2009

Diversão de domingo:

O Youtube, Vimeo e sites afins não se limitam a trazer o mundo em movimento para o nosso nariz e levar nosso mundo para o nariz dos outros. Eles permitem também a qualquer um se converter em curador e programador dentro do grande fluxo da rede. Você pode criar canais pessoais, dentro do próprio site, para sugerir o que outras pessoas  devem ver. Ou então fazer suas curadorias no seu próprio site ou blog.

Uma excelente “mostra” virtual eu conheci recentemente através do indispensável Twitter da @mariliamartins, correspondente de O Globo em NY. O designer canadense Mike Smith selecionou no Vimeo 50 curtas incríveis que usam a técnica do stop motion, envolvendo desenho, grafite, animação 3D e gente de carne e osso.

Clique aqui para chegar lá. Vale por um pequeno Anima Mundi.





Tokyo, eu não te amo

13 11 2009
tokyo!

Uma cena do episódio de Bong Jun-Ho

Enquanto o produtor da série Cities of Love não faz “Tokyo, aishite imasu”, esse lugar poderia ser preenchido por Tokyo!, que entrou hoje em cartaz no Brasil. Digo “poderia” porque esta imagem da capital japonesa, vista por três diretores estrangeiros, está longe de romantizar a cidade. Ao contrário, é quase sinistra.  Continue lendo





Twitter, eu te amo

12 11 2009

140Não sei se é o primeiro, mas vai sair em breve um filme completamente inspirado pelo Twitter. O título é auto-explicativo: 140. Mas também poderia ser “Twitter, I Love You”, já que a proposta se aproxima da série iniciada com Paris, Je t’Aime. A ideia foi do curta-metragista irlandês Frank Kelly. Ele pediu a 140 pessoas de 23 países que filmassem durante 140 segundos no dia 21 de junho às 8 da noite (horário Greenwich). O tema era “conexão”. De posse desse material, Frank começou a editá-lo livremente, de maneira a criar um fluxo de ideias e imagens, um poema audiovisual a respeito de conectividade. 

Já existe um clipe do filme na rede. Por ele, não dá bem para sacar qual será o resultado. Mas diz uma coisa: o Brasil é a menina dos olhos do mundo. Quase todo o clipe é composto de imagens do Rio de Janeiro (tem SP também?), com direito ao Cristo Redentor e seu panorama (veja abaixo). Entre os 140 cineastas, há quatro brasileiros, sendo três de SP e um do Rio.  

Por conexão, Frank Kelly entende um espectro amplo de coisas. Ele recomendou aos envolvidos que filmassem algo que os conectasse com o lugar onde vivem. “Pode ser qualquer coisa. Suas crianças. O oceano. Um crepúsculo. Amanhecer. O sorriso de um amante. Amigos rindo. Tráfego. Uma paisagem. Não há regras. Cabe a você decidir. Mas deve ser verdadeiro para você.”.

Frank vai em seguida batalhar a colocação de 140 em festivais e distribuí-lo mundo afora. De futuro, ele pretende criar um site com um mapa onde se possa clicar e ver os 140 segundos completos de cada locação. Para saber a quantas anda o projeto, consulte o blog ou, claro, siga Frank no Twitter.





Um filme com fome de realidade

10 11 2009
Entre a Luz e a Sombra

Luciana coleta autorização de Marcos Omena/Dexter

Estreia no próximo dia 27 um dos melhores filmes brasileiros do ano. Tem amigos que se reencontram na prisão, tem amor entre classes sociais distintas, tem separações, tem rap, sucesso e celebridades. Tem o céu e o inferno correndo nas veias de um incrível documentário.

Entre a Luz e a Sombra é produto da competência e da perseverança de uma jovem realizadora que aprendeu (com Jon Alpert) a filmar a realidade sozinha. Fazendo ela mesma imagem e áudio, a mineira Luciana Burlamaqui começou a gravar, em 2000, os encontros dos rappers presidiários Dexter e Afro X e da atriz Sophia Bisilliat com jovens da Febem em São Paulo. Dexter e Afro X, amigos de infância na periferia de São Bernardo do Campo, formavam então o bem-sucedido grupo 509-E (número da cela que o destino os fez dividir no Carandiru). Dexter tinha um romance com Sophia, que desde os anos 1980 realizava trabalhos de humanização da vida carcerária através da arte.  Continue lendo





Bodanzky relembra Lévi-Strauss

9 11 2009

No livro que fiz com/sobre ele, Jorge Bodanzky rememora seu encontro com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em fins dos anos 1980. Transcrevo abaixo esse trecho de Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006):

Mato Grosso: memórias de Lévi-Strauss

Minha relação com o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, levou cinco anos para se transformar em filme.

Em 1985, enquanto montava Igreja dos Oprimidos em Paris, cometi a imprudência de fazer a proposta diretamente a Lévi-Strauss por telefone, e ainda por cima no meu péssimo francês. Eu queria voltar às aldeias indígenas do Mato Grosso que ele visitou em 1935 e 1938 para verificar o seu estado atual, assim como a memória que ainda houvesse dos encontros, a partir das suas fotografias e dos filmes que sua mulher, Dina, rodou na ocasião. Lévi-Strauss não foi especialmente gentil, mas pediu que lhe mandasse uma proposta por escrito. Foi o que fiz. Poucos dias depois, recebi uma resposta amável, autorizando a referência ao seu livro e o uso dos filmes. Mais que isso, ele se dizia “vivamente interessado em rever, filmadas por você no seu estado atual, as regiões que percorri há meio século”. Continue lendo





O affair Frodon

7 11 2009

Os brios dos cineastas brasileiros foram atingidos esta semana por uma entrevista do crítico francês Jean-Michel Frodon à Folha de S. Paulo. Convidado para o júri da Mostra Internacional de Cinema de SP, Frodon, ex-colunista do Le Monde e ex-diretor da Cahiers du Cinéma, desancou a produção brasileira com palavras duras:

 FOLHA – Como vai o cinema brasileiro?
JEAN-MICHEL FRODON
– É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria. O último filme brasileiro do qual eu gostei foi “Mutum”. Continue lendo





Os muitos trânsitos de Vivian Ostrovsky

5 11 2009

Copacabana BeachVivian Ostrovsky apresenta um programa especial no Curta Cinema nesta sexta-feira, às 20h30 21h30, no Odeon. Serão exibidos Copacabana Beach, Ice/Sea, P.W., Télépattes, The Title Was Shot e Tatitude. A pedido de Aílton Franco Jr., escrevi o seguinte texto para o catálogo do Festival:

   

Os cinco curtas escolhidos por Vivian Ostrovsky para este programa dão uma ideia da diversidade de procedimentos utilizados pela realizadora, mas também evidenciam alguns traços comuns numa obra marcadamente pessoal. A primeira ideia que se impõe é a do trânsito.

 Jet Lag é como se chama a produtora de Vivian. Nome escolhido a dedo por uma artista que vive em trânsito entre Nova York, Paris, Rio, Moscou, Jerusalém e outros tantos lugares. “Minha ambição é ser uma luftmensch, uma pessoa do ar”, diz. Seu cinema é marcado por esse trânsito – cenas colhidas no cotidiano por alguém que é íntimo e visitante ao mesmo tempo. Continue lendo





Celebração trash de uma memória

4 11 2009

Gosto de me pensar como uma pessoa politicamente correta – ou pelo menos que almeja sê-lo. Não me envergonho disso. Acho que a correção política é uma conquista, não uma praga dos nossos tempos. Não compartilho da campanha contra o politicamente correto, movida pelos cínicos de plantão. Para mim, ela é parte do relativismo selvagem e da canalhice da-boca-para-fora que soam moderninhos por aí.

Portanto, a julgar pelo que tenho ouvido de gente que respeito, tinha tudo para odiar Alô Alô Teresinha. E se odiasse, estava disposto a crivar o filme de balas politicamente corretas, mesmo sendo amigo e colega de profissão do diretor, o também crítico Nelson Hoineff. Qual não foi minha surpresa quando isso absolutamente não aconteceu.  Continue lendo





Dois eventos da pesada

2 11 2009

São eles: a mostra Olhares Desinibidos, no Instituto Moreira Salles, e a sessão especial de 12 anos da Cavídeo no Odeon. Vamos a cada um:

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Expressões amazônicas

1 11 2009

o areal

Um areal no Pará, uma comunidade de quilombolas em Marajó e um vendedor de picolés de Manaus valeram os três prêmos Muiraquitã da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, encerrada ontem à noite em Manaus. O Areal (foto acima), doc exibido na Mostra Meio-ambiente do último Festival do Rio, foi o que mais agradou o júri, composto pelo escritor Marcio Souza, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, a pesquisadora Stella Oswaldo Cruz Penido e este escriba. Abaixo, transcrevo uma microresenha do filme que eu já havia feito aqui no blog:  Continue lendo





Jurandyr Noronha e eu

1 11 2009

Jurandyr pqAbro espaço para o release do programa Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos, que dirigi para a série Retratos Brasileiros e estreia hoje, às 18 horas, no Canal Brasil. A quem assistir, repito o que disse em e-mail aos amigos: apreciem a grandeza do trabalho do Jurandyr e desculpem as insuficiências do meu.

 

Estreia no domingo, dia 1º de novembro, às 18 horas, na faixa Retratos Brasileiros do Canal Brasil, o programa Jurandyr Noronha: Tesouros Quase Perdidos. Aos 93 anos, o veterano documentarista, pesquisador e escritor reconta sua trajetória, que começou nos anos 1940. Jurandyr Noronha trabalhou com Adhemar Gonzaga na Cinédia, com Humberto Mauro no Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi cinegrafista do DIP de Vargas e realizou dezenas de documentários, entre eles os longas-metragens Panorama do Cinema Brasileiro, 70 Anos de Brasil e Cômicos + Cômicos. Continue lendo





Cabeças cortadas em Marajó

30 10 2009

Onde mais eu poderia ver um documentário sobre a Ilha de Marajó senão na Mostra Amazônica do Filme Etnográfico? Pois aqui vi dois. Um deles foi dirigido pelo canadense Gavin Andrews. O Glorioso retrata a festa em homenagem a São Sebastião na cidade de Cachoeira do Arari. O santo do corpo flechado há muito roubou a cena da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, e sua festa mobiliza gente de toda a ilha e também do Pará.

A partir da festa (10 a 20 de janeiro) e de sua longa preparação desde seis meses antes, o filme faz uma etnografia da culinária, das lutas corporais e do sincretismo religioso típicos da cultura marajoara. Mas, com uma limitação frequente nesse tipo de doc preso aos rituais, passa ao largo de qualquer observação social.

O mesmo não acontece com Salvaterra, Terra de Negro, da paraense Priscilla Brasil (autora do irresistível As Filhas da Chiquita, sobre travestis que festejam o Círio de Nazaré). Em Salvaterra, diversas comunidades de descendentes de quilombolas de Marajó são visitadas através de personagens fortes, como um líder popular, um praticante do culto bárbaro da Cabocla Erondina e uma jovem que se diz herdeira da luta de Zumbi. Nesse doc muito bem realizado, o estudo etnográfico convive bem com a questão social.

Em Marajó, muitas comunidades populares vivem progressivamente comprimidas por fazendas que demarcam seus limites com cercas eletrificadas. Priscilla Brasil contrapõe a alegria das festas e a intensidade dos rituais à denúncia desses campos de concentração. O efeito dramático é poderoso.

No entanto, para quem conhece a realidade de Marajó, a extensão do problema ainda não foi exposta por nenhum filme. O antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, meu colega de júri, explicou-me que a festa de São Sebastião é o único período do ano em que os proprietários facultam a travessia das cercas pelos pequenos lavradores e suas famílias. Quando essa regra é desobedecida em outra época, a punição não é pequena: cabeças são cortadas e jogadas no rio.





Ele voa!

29 10 2009

Besouro

Besouro vem aí. Posso prever que não será unanimidade entre os críticos. Não temos uma cultura de filmes do gênero aventura épico-mítico-histórica. Tendemos a rejeitar espetáculos que se pretendem grandiosos, com técnicas importadas e sem justificativas sociológicas eloquentes. Já ouvi comparações irônicas como “Quilombo 2 – A Missão”.

Mas Besouro corre em pista bem diferente. É aventura destinada a um público diversificado, que inclui o infanto-juvenil. A formação do mítico capoeirista baiano é contada como uma história de mestre e discípulo na linha Karatê Kid. O surgimento do herói se dá à base de culpa por um descuido na proteção ao mestre. Seus poderes sobrenaturais vêm do encontro com um Exu que reúne traços de guerreiros africanos, orientais e medievais. A rivalidade entre colonizadores brancos e lavradores e serviçais negros tem o sabor um tanto esquecido dos nordesterns. Já as lutas de Besouro ganham o caráter vertiginoso de O Tigre e o Dragão, tendo bananeiras no lugar dos bambuzais de Ang Lee.

Ungido por Exu, Besouro é capaz de incorporar-se em outras pessoas e transmitir sua força. Mas tem um ponto fraco, a sua kryptonita. Esse talvez seja o primeiro superherói afro-brasileiro explícito do cinema, o oposto da sátira subdesenvolvida encarnada pelo Superoutro de Edgar Navarro. Aqui a técnica aspira o top de linha da aventura contemporânea, com imagens de tirar o fôlego. É admirável como o filme integra a alta tecnologia com elementos da natureza tropical. Basta ver a importância dos rios, ventos, fogo, animais e paisagens brasileiros no protagonismo da trama.

Não fosse o roteiro fragmentado demais, eu teria sido mais incisivo na defesa do filme na comissão de seleção do Oscar. João Daniel Tikhomiroff quer dialogar com o cinema de gênero internacional sem deixar de fazer um filme mestiço bem brasileiro. Besouro deve ser prestigiado não apenas por ser nosso, mas por ser um belo e luxuriante espetáculo popular.         





Manaus moments

28 10 2009
Abertura

Adrian Cowell, Vicente Rios, Stela Oswaldo Cruz e Sidney Possuelo na abertura da Mostra

No avião: Sally é uma senhora inglesa com jeito de fazendeira sentada ao meu lado. Começo a ver um doc amazônico no notebook e ela puxa conversa. Diz que há quatro meses mora numa “property” a três horas de carro e barco de Manaus. Não fala uma palavra de português e ainda não sabe a diferença entre um tambaqui e um tucunaré. Isso aqui continua um paraíso de aventureiros.

Na abertura da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico: Toda orgulhosa, Selda Vale Costa conta que, entre os 45 vídeos participantes, 12 foram realizados por amazonenses. Até o ano passado eram 3 ou 4. Comunica ainda que Belém terá um curso universitário de cinema a partir de 2010, o primeiro da região.

Na homenagem a Adrian Cowell: Ele explica por que resolveu doar seus filmes brasileiros à Universidade Católica de Goiás: “Primeiro, porque meu parceiro, Vicente Rios, é de lá. Depois, porque devo isso ao Brasil, que sempre me deu muito. Nunca tive dificuldade para filmar aqui. Lembro que um dia chegamos com duas câmeras numa fazenda acompanhando um fiscal do IBAMA que ia multar o proprietário. É claro que ele não assinaria um papel autorizando as imagens de sua punição por um crime ambiental. Mas, para minha surpresa, ele assinou!”

Na noite de autógrafos: Difícil é entender os nomes dos compradores dos livros, mesmo escritos no papelzinho: Kherleson, Randisa, Ladilce, Solyene…

No jantar: Adrian Cowell, Vicente Rios e o sertanista Sidney Possuelo (Serras da Desordem) me contam momentos de medo extremo em suas aventuras: quedas de avião, filmagens em ultraleves desgovernados, cano de revólver na boca quebrando os dentes, fogo cruzado entre guerrilheiros na Birmânia, quatro índios correndo atrás com flechas apontadas. Taí um bom tema para uma coletânea de aventuras reais: “O dia em que senti medo”.

Na volta para o hotel: Cowell e Rios lamentam que Andrea Tonacci tenha usado cenas de seus filmes em Serras da Desordem sem autorização. Na conversa, as coisas acabam se esclarecendo: Tonacci comprou as imagens à empresa Verbo Filmes, que no entanto não possuía mais os direitos. Ah, os bastidores dos documentários…    





Maratona manauara

27 10 2009

Mostra AmazoniaNa manhã de hoje (terça), embarco para o Norte. É minha primeira viagem desde que operei o joelho. Ainda não estou curado, vivo à base de fisioterapia, mas tenho que tocar a carroça pra frente. Toco pra Manaus, a convite da minha “irmã” pesquisadora Selda Vale Costa. Vou cumprir uma maratona de atividades na IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico.

Além de integrar o júri, vou autografar meus livros sobre/com Jorge Bodanzky e Vladimir Carvalho, fazer uma palestra sobre Realidade e Representação no Cinema Brasileiro Atual e participar de uma mesa-redonda sobre a obra brasileira do documentarista Adrian Cowell. Ele é o homenageado especial com uma mostra de seus filmes há pouco tempo entregues à guarda da Universidade Católica de Goiás (leia meu artigo no DocBlog sobre o assunto).

A mostra é realizada pelo Núcleo de Antropologia Visual da Universidade Federal do Amazonas. Da competição participam o mais novo filme de Bodanzky, De Volta ao Terceiro Milênio, e alguns títulos elogiados recentemente, como Expedito em Busca de Outros Nortes, de Aída Marques e Beto Novaes, e O Areal, de Sebastián Sepúlveda, exibido no Festival do Rio. A paulista Lina Chamie vai apresentar seu Amazônia, BR, trabalho de videoarte.

Até sábado vou mandando notícias por aqui e pelo Twitter.

A postos, joelho ingrato!





Machado redivivo no Cosme Velho

26 10 2009

No último fim de semana, passei bons momentos sob os eflúvios de Machado de Assis. No Casarão Austregésilo de Athayde, ali bem perto de onde morava o “Bruxo do Cosme Velho”, um grupo liderado por Gisela de Castro está encenando – melhor seria dizer “degustando” – o conto Linha Reta e Linha Curva.

O espetáculo habita – não sem certa ironia carinhosa – os espaços externos e internos do casarão onde viveu o ex-presidente da ABL. A plateia, limitada a 40 pessoas, é tratada como visitantes de uma mansão do século 19, tendo a sua disposição até mesmo leques para afugentar alguma eventual onda de calor. A doce sensação de intimidade em tudo colabora para envolver o público na atmosfera do conto. Continue lendo





As mil e uma histórias do MediaStorm

24 10 2009

Eu e o jornalista e escritor sergipano Paulo Lima somos assíduos leitores recíprocos. Ele edita o site Balaio de Notícias e não só ama documentários, como também se arrisca na produção independentíssima. Foi o Paulo que me chamou a atenção, recentemente, para o site MediaStorm. Pedi, então, que se encarregasse de apresentá-lo a vocês, caso ainda não conheçam. Aí vai o seu texto:

Um deleite visual

por Paulo Lima

Na paisagem desmesurada da internet, sites como o MediaStorm mostram que a combinação criativa de dispositivos pode resultar em vídeos de grande impacto e beleza. Patrocinado pelo Washington Post, o MediaStorm reúne um acervo de vídeos abordando um universo bastante variado de temas que vão desde denúncias – casos do mercado negro de animais em regiões da Ásia -, até histórias de sobreviventes de dramas e conflitos, como o massacre de Ruanda, a invasão de Falluja pelas tropas americanas e o desastre do Katrina. Continue lendo





“Distrito 9” e a nova ficção

23 10 2009

Nos cerca de 40 minutos iniciais está o que realmente me interessou em Distrito 9. Pois este é um filme que sobrevive da sua premissa: um contingente de alienígenas chega a Johanesburgo e é isolado pelos humanos numa espécie de acampamento de refugiados. O roteiro é hábil e sucinto na criação de uma metáfora não só para o antigo apartheid sul-africano, mas para o drama dos imigrantes, refugiados, proscritos de todas as naturezas. Vêm à mente desde Guantánamo às periferias das grandes cidades.

District 9

O processo decorre inevitável: guetificação, favelização, vigilância, repressão, surgimento do apelido, exploração pelo submundo local. O interessante personagem do agente Van De Merwe (nome típico dos afrikaners brancos) aos poucos se converte num boneco de game, acompanhando a mutação do filme de parábola sociológica em mero gato-e-rato, barulhento e hiperativo.

Mas antes que isso aconteça, lá naquela parte inicial, Neill Blomkamp narra os acontecimentos à maneira de documentários e telejornais. Esse procedimento, longe de conferir “autenticidade” ao que se vê, apenas lança mão de uma lógica expositiva que virou, em si, um tipo de espetáculo. Vemos aquele picadinho de narrações, cabeças falantes, flagrantes rápidos em vídeo precário etc como uma forma de fabulação que está no nosso cotidiano. Tão funcional e dramática como qualquer outro conteúdo. A linguagem documental ou jornalística não mais contamina a ficção com uma impressão de verdade. Ela é a nova ficção.





Projeção digital: o debate continua

22 10 2009

Após a divulgação da carta aberta de críticos brasileiros aos responsáveis pelas más condições do cinema digital entre nós, a empresa responsável pelo sistema Rain respondeu minimizando o assunto, como se ele se restringisse apenas a mostras e festivais. Leia no blog do Zanin.

Em comentário enviado diretamente a mim, a respeito do post “O cinema digital na berlinda” (veja mais abaixo), Luiz Gonzaga Assis de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro e vice-presidente da Federação Nacional dos exibidores, fez uma minuciosa análise da situação. “Cinema digital está se convertendo em cinema de baixa qualidade por aqui, quando a proposição é de se ter a melhor qualidade, com menos manipulação dos originais e com a garantia de se ter uma cópia absolutamente igual ao original.”, afirma.

Luiz Gonzaga defende o padrão DCI, mais dispendioso, mas capaz de preservar a qualidade e o formato das cópias 35mm. Quanto à Rain Networks, reconhece a maior adequação à nossa realidade, mas explica os inconvenientes de ter que fazer ajustes “artesanais” para cada filme exibido. Aí é que os descalabros acontecem entre os originais e o que se vê nas telas.

“A única questão que posso assegurar pela minha experiência de quase 35 anos atuando em cinema, a maior parte deles trabalhando com tecnologia, é que cinema digital é bom”, garante. “Na pior das hipóteses, equipara ao 35mm. Na melhor das hipóteses, é que cria condições ímpares de exibir conteúdos que não poderiam ser exibidos em cinema. É só fazer direito o que tem que ser feito. O que é fazer direito? É seguir as normas técnicas.”

Clique aqui para ler o arrazoado completo de Luiz Gonzaga Assis de Luca.