Notas sobre o partido da imprensa

8 02 2010
1.

Há quase oito anos acompanho nos jornalões o que chamo de “colunismo do mas”. Desde o início do governo Lula, articulistas como Merval Pereira e Miriam Leitão, de O Globo, militam na inglória tarefa de semear dúvidas sobre a política econômica. A cada iniciativa ou sucesso do governo, eles admitem o óbvio para logo em seguida contrapor um “mas…”. Ora é a crise internacional que vai mostrar suas garras; ora é a insuficiência das medidas para um futuro próximo; ora são indicadores menores que não acompanham o êxito dos maiores.

Os meses passam, a economia se mantém firme, mas o “colunismo do mas” renova sua retórica pateticamente. Novos sucessos têm que ser admitidos, mas…

Nesse domingo, Merval Pereira comentou a indiscutível ascensão da renda da classe média, mas foi pesquisar autores que colocam em dúvida a sustentabilidade desse quadro baseado no aumento do consumo. É sempre assim: o governo Lula é um sucesso, mas o preço do carretel de linha continua subindo e não dá pra garantir que em 2050 o país esteja bem.

OK, ninguém está pedindo um coro de contentes, mas até quando teremos que aguentar o coro dos descontentes batendo latinha enquanto passa a caravana de um Brasil melhor?

2.

Se tenho cá as minhas dúvidas sobre os métodos e a fanfarronice de Hugo Chávez, as dúvidas são maiores ainda sobre a maneira como a grande mídia conservadora brasileira o pinta dia após dia. As reações contra a recente cassação da concessão de uma rede de TV serviram para desenhar o perfil de um país “dividido” – como se a democracia não fosse justamente a arte de administrar divisões.            

O Globo de domingo também trouxe uma matéria com depoimentos de admiradores e desafetos do governo Chávez. Basta comparar os argumentos de cada lado para perceber que há uma cisão entre camadas populares e as classes média e alta. A opção do presidente pela redução de desigualdades está levando a luta de classes à esfera das políticas públicas. Mais uma prova da genialidade política de Lula foi seguir esse caminho sem botar o país na rota da polarização. 

O que mais me espanta nessas notícias de Caracas são as imagens dos estudantes que assumiram a defesa de uma empresa de televisão e protestam contra o governo. Eles podem até ter razão, mas precisavam parecer uma milícia de pitboys parrudos? Ou, pior ainda, como nessa foto de Fernando Vergara/AP, uma coluna perfilada com saudação fascista e máscaras brancas que remetem à Ku Klux Klan?          

3.

A mídia conservadora abraça acriticamente todos os signos e falsos questionamentos que contam a favor de suas escolhas. Sim, porque é ingenuidade ou canalhice achar que os grandes jornais e redes de TV são meros instrumentos da liberdade e da democracia. Eles o são apenas na parte cosmética. No fundo, são empresas que fazem escolhas políticas e se aproximam da condição de um partido informal. Orientações explícitas correm em surdina pelas redações. São todos contra Lula e contra Chávez, embora poucos assumam isso frontalmente como a revista Veja.

O resto é demagogia e manipulação.  





Recife em transe

6 02 2010

Na semana passada o Festival de Roterdã assistiu em première mundial ao novo filme do pernambucano Gabriel Mascaro, autor do polêmico Um Lugar ao Sol. Mais uma vez, Gabriel enfoca a relação de pessoas com sua moradia e a cidade. Mas Avenida Brasília Formosa se ocupa de uma faixa social bem diferente dos habitantes de coberturas do outro filme. A atitude do diretor também se altera diametralmente.

Estamos num bairro periférico de Recife, a favela Brasília Teimosa, cenário de uma célebre visita de Lula recém-eleito e seus ministros em janeiro de 2003. Já antes disso, em 2001, a orla do bairro tivera removidas suas palafitas para dar lugar à abertura da Avenida Brasília Formosa, rapidamente transformada em foco de especulação imobiliária. Esse tipo de informação, embora importante para se compreender as motivações dos personagens, nos chega de maneira oblíqua, como se encaixadas num roteiro de ficção.

Mascaro apresenta o filme como ficção, o que – desconfio - serve apenas para explorar a ambiguidade do seu registro observacional dos moradores reais de Brasília Teimosa. A não ser que aquelas pessoas não sejam o que estão representando na tela, trata-se de um documentário. As coisas giram em torno de Fábio, garçom que nas horas vagas trabalha como cinegrafista amador e tem outros pendores mais surpreendentes. O caminho de Fábio se cruza com o de Débora, manicure que o contrata para gravar seu book com vistas a uma vaga no Big Brother. Cruza-se também com o do menino Cauã, cuja festa de cinco anos é animada e gravada por ele. Temos, ainda, um tanto deslocado dessa rede central, o pescador Pirambu, que teve sua economia doméstica afetada pela remoção das palafitas.

Em vez de ficção, estamos diante de um documentário que procura escapar de cânones expositivos mais clássicos. Os fragmentos de informação sobre o cotidiano dos personagens e, por extensão, do ambiente do bairro fluem casualmente de conversas entre parentes e amigos, em casa, em bares ou no trabalho, e não sem algumas situações criadas artificialmente. A trilha sonora (proveniente das cenas) embebe as imagens no caldo brega de Recife.

Nada disso contradiz o espírito do doc moderno a ponto de ser visto como ficção. O que caracteriza, de fato, Avenida Brasília Formosa é a decisão de não buscar um eixo dramático definido. O filme tenta bastar-se nos fragmentos, na ausência de um “grande sentido”, seja ele sociológico ou antropológico. Para uns, isso pode soar como incompletude. Para outros, pode ser frescor.        

O que ninguém vai discutir é o capricho formal de Mascaro, que se reflete tanto no planejamento de tomadas expressivas sobre a relação das pessoas com a arquitetura e o urbanismo, quanto na qualidade das imagens captadas pelo cearense Ivo Lopes Araújo. Quem conhece Sábado à Noite, dirigido por Ivo, sabe o que pode esperar da fotografia noturna de Avenida… É algo próximo do virtuosismo. Por isso mesmo, às vezes temos a impressão de que a pesquisa estética é tão ou mais importante que a investigação temática do choque entre as Brasílias Teimosa e Formosa.  

Veja o trailer do filme:





Samba, versão Original

4 02 2010

O DVD pode não ter muito futuro, mas por um bom tempo ainda vai ter um presente bem forte. Por isso vale festejar a recente chegada da distribuidora carioca Original Vídeo. O catálogo deles é composto exclusivamente de filmes brasileiros, sejam de baixo, médio ou grande orçamento. João Batista de Andrade tem dois filmes lá: o clássico O Homem que Virou Suco e O País dos Tenentes. O único filme de Evaldo Mocarzel lançado em DVD, Do Luto à Luta, está no selo.

Outros docs de destaque são Vaidade, de Fabiano Maciel (vendedoras de cosméticos na Amazônia), Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto, de Bebeto Abrantes, Memória para Uso Diário, de Beth Formaggini, L.A.P.A., de Cavi Borges e Emílio Domingos, Pretérito Perfeito, de Gustavo Pizzi, e Caroneiros, de Martina Rupp. Além disso, há outros longas de ficção e duas coletâneas de curtas, entre os quais o antológico Uakti – Oficina Instrumental.

No próximo sábado, a Original vai cair literalmente no samba, na quadra da Mangueira, durante o último ensaio da escola antes do carnaval. Ali terá lugar o lançamento do DVD de Samba, doc de Thereza Jessouroun aditivado com legendas em inglês e espanhol.

"Delegado" e uma cria na Mangueira de "Samba"

Abaixo, trechos de um texto que publiquei quando do surgimento desse filme, em 2001. Desde então, Samba foi exibido em vários canais brasileiros e em mais de 30 países da Europa e América Latina.         

_______________

Poucas instituições brasileiras já foram tão devassadas pelas câmeras quanto as escolas de samba. Curiosamente, o primeiro grande documentário sobre o assunto, Nossa Escola de Samba, de 1965, foi produzido e fotografado por um húngaro (Thomaz Farkas) e dirigido por um argentino (Manuel Horacio Giménez). Acompanhava a Unidos de Vila Isabel durante um ano, de um carnaval a outro. Hoje, o desafio dos documentaristas é encontrar novas formas de tratar um assunto incessantemente monitorado pelas televisões de dezembro a março.

O perfeito contraponto para essas visões macro do samba profissional e gerenciado está no documentário Samba, de Thereza Jessouroun, vencedor do Prêmio TV Cultura na última edição do Festival de Documentários É Tudo Verdade e selecionado pelo canal franco-alemão Arte para exibição nas televisões de sete países europeus em julho de 2002. O título simples diz tudo. Thereza quis mostrar o samba antes de ele virar megaespetáculo de TV. Filmou na Mangueira, berço de toda essa história. Escorada numa tradição que aprendeu com Eduardo Coutinho, ela rodou pelas biroscas, barracos, terraços domésticos e rodas-de-samba do morro, ouvindo velhos mestres e passistas célebres, e filmando a garotada que aprende a sambar tão logo cessa de engatinhar. O samba, para essa gente, passa de geração para geração, educa, une e separa casais, cura, abafa mágoas, liga-se ao universo místico das pessoas. Algumas das histórias ouvidas por Thereza transcendem a mera documentação do samba e viram depoimentos emocionantes sobre a vida daquelas pessoas.

Enquanto a grande maioria dos documentários sobre samba o abordam pelo veio da música, dos compositores ou das escolas, Samba ocupa-se da dança em si, da maneira como os mangueirenses conduzem os pés e o corpo e, por extensão, de como isso influencia o que vai por suas cabeças. “Delegado”, o lépido e lendário mestre-sala de 77 anos, elegante como um Fred Astaire esculpido em ébano, mostra vigor tanto nos pés como na imaginação ao rememorar sua vida galante. A “baiana” Celina conta como o samba a ajudou a superar uma grande desilusão afetiva.

Preciosas imagens de arquivo, além de trechos do clássico de Manuel Giménez, convivem com cenas atuais, gravadas pela câmera-na-mão do célebre Dib Lutfi ou de cinegrafistas mais jovens. Daí surge uma perspectiva histórica. Boa parte dos entrevistados se mostra nostálgica com a diluição do velho samba de morro e sua transformação em item empresarial. “O samba agora é chuchu com abóbora”, compara a veneranda passista Ivete. 

Como tantos filmes, Samba também termina no esplendor da pista do Sambódromo. Mas, nesse caso, o carnaval não é a apoteose de um processo. O espetáculo da avenida, rigidamente coreografado e submetido a todo tipo de convenções, é apenas um momento de exceção na vida dos sambistas. Thereza Jessouroun enfoca o samba do resto do ano, quando ele significa improvisação, jogo de cintura e auto-ajuda para uma imensa comunidade carioca. “O samba é pé, cadeira e cadência”, define Nanana da Mangueira. O resto é chuchu com abóbora.





A classe média vai ao paraíso

2 02 2010

Cena de "Pacific"

Quando cheguei à 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, sexta-feira passada, eram já os dois últimos dias do evento. Perdi alguns filmes muito comentados pelas ruas de pedras da cidade. Por exemplo, o vencedor da Mostra Aurora, Estrada para Ythaca, road-movie dirigido e interpretado por um grupo de jovens cearenses. Ou A Falta que nos Move, em que a diretora Christiane Jatahy levou para o cinema uma experiência de improvisação radical feita antes no teatro.

Mas de todos o filme mais discutido era o doc Um Lugar ao Sol (já comentado aqui no blog), por conta de seu retrato pouco lisonjeiro de algumas famílias de classe média alta e da ética duvidosa com que Gabriel Mascaro delas se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o appartheid social nas grandes cidades brasileiras.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Mas dificilmente o filme não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de uma armadilha. Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem que escolher o inimigo mesmo, e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.              

Embalado por essa polêmica, preparei o espírito para ver outro doc pernambucano presente na mostra. Em Pacific, o diretor Marcelo Pedroso (montador de Um Lugar ao Sol) reuniu imagens de 34 câmeras de turistas que fizeram cruzeiros de Recife a Fernando de Noronha em fins de 2008. Não há uma única imagem ou som produzido diretamente para o filme, além dos letreiros iniciais que explicam o processo. A equipe limitava-se a observar os grupos e famílias que se filmavam durante os seis dias de viagem. Ao final, pedia autorização para usar cópias do material num documentário. O filme monta cenas de quatro cruzeiros de maneira a criar a continuidade de uma única viagem.

O contexto é, certamente, de deslumbramento pequeno-burguês. Mas, ao contrário do filme de Mascaro, não se vê aqui uma intenção deliberada de expor condutas condenáveis. Até porque o material, por natureza ingênuo e lúdico, cria um distanciamento característico. É a consciência em férias. Uma sensação catártica perpassa as falas fascinadas pelas atrações do navio, as “bocas livres”, a expectativa da chegada ao tão sonhado “paraíso” de Noronha. As imagens balançadas, estouradas, erráticas são expressões mais de uma exaltação pessoal que de um desejo de mostrar ou informar. A celebração em miniDV.

Esse fluxo polifônico, que passa de um grupo a outro, tem seus momentos especiais. Um casal, por exemplo, filma-se fazendo poses elegantes, mas supostamente naturais, nas dependências do navio. Outro imita a cena do deck de Titanic (foto ao lado). Uma menina filma os pais na intimidade da cabine. E por aí afora. Quando chegamos à última cena, o reveillón de 2009, apesar do enjoo com as trepidações das imagens amadoras (boa referência às oscilações do navio), podemos mesmo sentir uma certa ternura por essa estética naif e ultra-clichê.

O efeito principal de Pacific (ou “Pacifíque”, como pronuncia uma voz nordestina) é de um deslocamento quase dadaista. Aquelas imagens e sons não foram feitas para serem vistas por nós, muito menos numa sala de cinema. Ali somos voyeurs de algo feito para consumo doméstico e privado. O risco do filme é limitar-se a uma oferta ao voyeurismo. Ao mesmo tempo, precisamos ter sempre em mente que aquelas cenas não foram feitas pela equipe do filme. Nos docs que usam materiais de arquivo entre outras coisas, esse código está sempre muito presente. Aqui não, pois tudo é só e radicalmente alheio.

Por muitas razões, Pacific nos coloca num estranho lugar como espectadores.





Retrato solene do poeta inútil

31 01 2010

 

Há muita pedra no caminho de quem se dispõe a varrer o chão de Manoel de Barros. Sua poesia, cheia de insignificâncias profundas, pede mão leve e olhar arejado. Sua vida, toda ela virada contra a parede, não rende grandes cenas nem parece abarcar grandes histórias. Joel Pizzini descobriu isso quando tentou fazer um doc sobre o poeta pantaneiro e acabou desfazendo o curta-poema Caramujo-Flor. 

Pedro Cezar, em Só Dez por Cento é Mentira, experimentou o caminho do meio. Ou seja, combinar o-poeta-por-ele-mesmo com o-poeta-por-outros e o-poeta-espalhado-no-mundo. Obteve de Manoel uma rara entrevista “para a máquina”. Colheu flores de admiração de Pizzini, Bianca Ramoneda, Elisa Lucinda, Viviane Mosé e Fausto Wolff. Arrebanhou gente que cria por causa de Manoel: um fabricante de objetos poéticos, um escultor brutalista, um guia turístico de “manoelês” em Corumbá. Ouviu parentes, salpicou versos na tela, construiu estrofes visuais para sugerir a materialidade e a meninice da poesia manoelina.

O resultado é solene, vistoso e sobrecarregado, a ponto de não condizer muito com a delicadeza da poesia que se vê e ouve. O próprio poeta, quando fala, convenhamos, não contribui muito para ficar igual ao que escreve. A ininterrupta consciência de ser um poeta absoluto, assim como um suave e sorridente egocentrismo, tingem suas palavras de fio a pavio. Até porque esse tipo de louvação o estimula a passar sempre a mesma imagem.

Só Dez por Cento é Mentira é o que o senso comum espera de um “documentário sobre Manoel de Barros”. Mas foram os próprios versos do poeta que nos ensinaram a esperar o inesperado, o paradoxo que desconcerta o senso comum. Tem muita coisa no filme, mas faltou talvez o essencial.





Os filmes-processo

29 01 2010

Hoje, sexta, viajo cedinho para a Mostra de Cinema de Tiradentes, a tempo de participar da mesa sobre “A Estética do Processo – os Filmes por trás dos Filmes”. Pedro Butcher, Cezar Migliorin e eu vamos conversar sobre um dos traços mais marcantes do cinema contemporâneo, que é a reflexividade – os filmes que expõem ou comentam seu próprio processo de realização.

Certamente estarão em foco filmes como Aquele Querido Mês de Agosto, Romance de uma Geração, Juventude em Marcha, diversos de Eduardo Coutinho e A Falta que Nos Move, de Christiane Jatahy. Todos trazem algum raciocínio sobre a representação no cinema e se constroem através de uma suposta desconstrução de seus mecanismos narrativos.

Na minha participação, pretendo abordar uma variante dessa questão: os filmes que apresentam uma “reflexividade para fora”, ou seja, tratam do processo não deles próprios, mas de algo que lhes é análogo. Por exemplo, Moscou nos faz mergulhar no processo de preparação de uma peça, embora não seja o making of de um espetáculo. O processo da peça de Tchekov é também o processo do filme. Mas, por ser principalmente da peça, o filme, a meu ver, se frustra como objeto cinematográfico.

Outro caso interessante é Santiago, de João Moreira Salles. O filme trata do processo de um filme que não foi feito nos anos 1990. É o making of crítico de um filme que nunca existiu, enquanto o Santiago afinal existente nos chega como uma máquina de significações perfeitamente fechada, pronta, inexpugnável. Temos apenas a ilusão de conhecer o processo de realização do Santiago definitivo.

Se der tempo, quero falar um pouco também do curta A Letter to Uncle Boonmee, que vi na internet. Nesse filme, o tailandês Apichatpong Weerasethakul comenta os impasses que enfrentou para fazer um longa sobre o mesmo tema: um homem moribundo e capaz de recordar suas vidas passadas. Uncle Boonmee é um projeto multiplataforma sobre extinção e memória que o cineasta está tocando na Tailândia com patrocínio europeu. O curta tem uma narração em off e até o desvelamento de procedimentos de câmera que servem para falar de um processo maior em curso.

Tiradentes tem clima para esses papos.    





Jovens fora do eixo

27 01 2010

Vem aí uma onda de filmes brasileiros sobre as alegrias e agruras da adolescência. César Rodrigues e a Total Entertainment preparam o lançamento da franquia High School Musical: O Desafio; Laís Bodanzky retoca para abril As Melhores Coisas do Mundo; Esmir Filho já comprovou com o grande prêmio do Festival do Rio a qualidade do seu primeiro longa, Os Famosos e os Duendes da Morte, a ser lançado em março.    

Nesse surto de espinhas e pingentes em forma de coração há lugar também para dois documentários produzidos fora do eixo dominante Rio-São Paulo-Pernambuco. Eles têm tantas semelhanças que parecem conversar através das montanhas entre Minas e o Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, são filmes muito diferentes entre si. Continue lendo





Bios do Twitter

25 01 2010

Tenho o estranho hábito de reparar como as pessoas registram sua biografia no Twitter. O espaço para isso é pouco mais generoso que o de um tweet qualquer: 160 caracteres. Ali cada twitteiro deixa uma pista (ou um despiste) sobre si próprio. Anotei algumas “bios” de brasileiros que me pareceram curiosas:

Tem os engraçadinhos:

@fnazareth  Não se deixem enganar. Sou um leitor.

@FrancisFrenezy Nãoseiusarotwitter-entendeu?

Tem os aparentemente sinceros:

@patricia_caes diretora de arte – mineira – apaixonada por propaganda, pao de queijo e futilidades de grande impacto.

@argolo Preguiçoso, feio, pseudo-intelectual, duro e a pé.

@vidademerda Minha vida é uma merda, mas não dou a minima. Só as melhores desgraças no Twitter. Visite o site para a lista completa.

Os “modestos”:

@alaidenc  Uma única qualquer

@ Cintia_Martins  Simplesmente Cíntia!

Os pensadores:

@caroldeassis  No elevador penso na roça, na roça penso no elevador

@luparhan para bom entendedor, meias palavras; para bom descritor, 140 caracteres…

E os poliglotas:

@gugavalente Chelovek s kino-apparatom e um chopp

@isisnan  평화와 사랑

Minha bio talvez se encaixe nos “sem imaginação”:

@carmattos Crítico de cinema, amante de documentários, viajante apaixonado 





Quem tinha medo de Paulo Francis?

23 01 2010

Não é preciso ser um admirador de Paulo Francis para gostar de Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff sobre um de seus maiores amigos durante 19 anos. Eu mesmo rejeitava o elitismo que parecia atravessar a personalidade inteira do jornalista – da política à cultura, do humor à baixa estima que destilava pelas coisas brasileiras. Francis era republicano, antipopular, racista, sexista, talvez um tanto misantropo – ou seja, tudo o que pessoalmente abomino. No entanto, apreciei este perfil traçado com honestidade pelos seus próprios amigos e ex-colegas de trabalho. Continue lendo





O homem que também fazia músicas

22 01 2010

Na minha resenha de O Homem que Engarrafava Nuvens (leia aqui), fiz rápida menção ao fato de o filme não destacar devidamente as letras, o que teria sido a contribuição principal de Humberto Teixeira nas suas parcerias com Luiz Gonzaga. Ao ler isso, meu amigo Jairo Severiano, um dos maiores pesquisadores da MPB, ponderou comigo que Humberto é responsável também pela música de muitos baiões de sucesso da dupla. Não haveria, portanto, uma divisão muito rígida entre músico e letrista.

Jairo possui uma cópia do longo depoimento de Humberto Teixeira ao pesquisador cearense Nirez, dado em 1977 para o Museu Cearense da Comunicação. Vários trechos desse depoimento estão no áudio do documentário de Lírio Ferreira. Para ilustrar sua colocação, Jairo transcreveu uma pequena passagem que não se ouve no filme, onde Humberto esclarece a natureza da parceria. Veja aí:

“Principalmente depois do processo de mitificação de Luiz Gonzaga, a redescoberta que a onda baiana fez em torno de Luiz Gonzaga, muita gente querendo ser generosa diz que eu sou o letrista das músicas de Luiz Gonzaga. Não existe nada disso. Muitas delas são minhas integralmente, letra, música, tudo… como outras são do Luiz. Na nossa parceria, eu costumo dizer, não sei onde começa o poeta e onde termina o músico. É uma parceria indestrutível, muito amiga, muito fraterna, de maneira que o que não foi feito por ele eu considero feito e vice-versa. A recíproca é absolutamente verdadeira. (…) Eu nunca me importei muito com esse processo de eu ter ficado atrás do reposteiro.”

Jairo Severiano esclarece, inicialmente, que a tal “onda baiana” citada por Humberto refere-se à “conhecida onda de elogios desencadeada por Caetano e Gil em louvor ao sanfoneiro e que resultou em sua ressurreição profissional”.

Por fim, Jairo me passou o seguinte comentário, de sua lavra:

“Além de sua importância, dividida com Teixeira, no processo de estilização da música nordestina, Luiz Gonzaga foi o grande divulgador do gênero. A presença intensa do cantor-sanfoneiro nos palcos, no rádio e no disco, com sua competência, sua simpatia, seu carisma, fez dele uma das maiores figuras de nossa música popular no século XX. Sem Luiz Gonzaga o baião jamais teria chegado ao sucesso alcançado. Tudo isso está reconhecido e exaltado em outro trecho do depoimento de Humberto Teixeira”.

Jairo Severiano é autor dos livros Yes, Nós Temos Braguinha (Funarte/Martins Fontes, 1987), A Canção no Tempo – 85 Anos de Músicas Brasileiras (2 volumes, co-autoria de Zuza Homem de Mello, Ed. 34, 1997) e o definitivo Uma História da Música Popular Brasileira (Ed. 34, 2008)   





Que delícia de velório!

20 01 2010

Em muitas peças que vi ultimamente, chegava um momento em que eu começava a consultar o relógio. A falta de teatralidade, o baixo interesse no que via me faziam torcer para aquilo acabar logo. Algumas delas pareciam que, enfim, iam terminar, mas recomeçavam, infinitamente, para além de noções básicas de ritmo e dramaturgia.

Com As Meninas, de Maitê Proença e Luiz Carlos Góes, só depois de sair do teatro, no último sábado, foi que me dei conta de não ter olhado, uma vez sequer, para o meu Swatch. Mais que isso. Quando a peça fez menção de terminar, com a ação cortada por um samba bem à moda de Amir Haddad, eu lamentei. Queria um pouco mais. E para minha sorte, findo o interlúdio sambístico, a peça recomeçava numa espécie de último ato. Eles pareciam ter ouvido o meu desejo. 

As Meninas não é a primeira peça que se passa num velório. Mas aqui o fato grave – a morte de uma mulher jovem e apaixonada, morta a facadas pelo marido ciumento – é visto pelo olhar entre lúdico e assustado de duas meninas, a filha e a sobrinha da morta. Na fantasia das meninas, tudo é deliciosamente exagerado ou minimizado. A avó inconsolável é uma megera de filme da Disney. A tia vaidosa é uma personagem de Fellini. A própria falecida reaparece para celebrar enfim a liberdade. E até a bisavó ressurge do além com suas vidências amalucadas.

O texto parece um encontro de Nelson Rodrigues e Tim Burton. Enleva, diverte e comove enquanto faz refletir sobre os reflexos do mundo adulto na formação dos adolescentes. Dá para imaginar que tudo aquilo poderia soar ridículo não fossem a direção primorosa de Amir Haddad e o talento e a precisão das atrizes, todas elas. E ainda uma trilha sonora de clássicos tão bem escolhidos e posicionados que as falas soam como se nascidas já com a música.

As Meninas reestreou no Teatro Clara Nunes de quinta a domingo. A quem ainda não viu, recomendo enfaticamente. Nem precisa levar o relógio.





O cinema natural de Heddy Honigmann

18 01 2010

O nome da cineasta holandesa Heddy Honigmann não sugere qualquer ligação  com o mundo latino. Mas Heddy nasceu no Peru e volta e meia filma na América do Sul. Seu mais recente documentário, exibido no É Tudo Verdade/2009, foi El Olvido, uma tocante galeria de gente humilde da sua cidade natal, Lima (ele pode ser visto aqui, falado em espanhol com legendas em holandês).

A Videofilmes está lançando um DVD com dois outros docs latinos de Heddy Honigmann: Metal e Melancolia e O Amor Natural. São duas amostras da incrível capacidade da diretora de se acercar de pessoas comuns para extrair emoções e entusiasmos com a maior simplicidade e delicadeza. Continue lendo





Baião, que bom tu sois

16 01 2010

Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga

Ao contrário de muita gente boa, eu não gostei de Cartola – Música para os Olhos, o doc com que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda quase afogaram o sambista num mar de referências estapafúrdias (leia minha resenha). Se os dois pernambucanos não acertaram o compasso do samba, a afinidade de Lírio com o baião rende agora um filmaço com O Homem que Engarrafava Nuvens (conheça o blog do filme). Toda a invenção, o cruzamento de alusões e eixos narrativos, que em Cartola pareciam pretensiosos, aqui se justificam plenamente e formam uma unidade coesa.      

Humberto Teixeira era um homem brilhante e conservador, co-responsável (com Luiz Gonzaga) por impor o baião como uma das matrizes da música popular brasileira, aqui e no exterior. Com roteiro e edição primorosos, o filme costura as dimensões humana e artística do personagem sem jamais perder a graça e o ritmo. Pontua os elos entre o baião e manifestações tão diversas da MPB quanto os cegos cantadores, o Tropicalismo, Raul Seixas, o pop pernambucano e até, quem sabe, o reggae. Não dá pra sair do filme sem uma ponta de orgulho por tanta musicalidade.  

Talvez fosse interessante ressaltar melhor o aspecto mais marcante da contribuição de Humberto Teixeira, que foram as letras. O foco acaba mesmo na música, perigando reforçar a desigualdade do peso em relação a seu parceiro estelar (Leia update sobre o assunto). Há quem reclame da “lavagem de roupa suja” de Denise Dumont (filha de Humberto, produtora e co-roteirista do filme), mas isso me pareceu completamente orgânico pela forma como o doc se organiza desde a sequência inicial.  

No fim das contas, temos um perfil criativo, às vezes empolgante, de um grande artista que soube combinar como poucos o erudito e o popular. Eu poderia tecer loas à fotografia de Walter Carvalho e às deslumbrantes imagens de arquivo garimpadas por Antonio Venancio, mas prefiro fazer outra coisa: deixar vocês com o texto que Felipe Messina escreveu para o DocBlog em 2008, muito mais inspirado do que o meu.   Clique para ler





Um Herzog surpresa

15 01 2010

Taí a pílula que escrevi sobre Vício Frenético, de Werner Herzog, no último Festival do Rio:

É preciso dar uns 15 minutos para sintonizar-se com a proposta de Werner Herzog nesse filme surpreendente sob todos os aspectos. O que a princípio soa ridículo e caricato aos poucos ganha foros de sátira ao policial hollywoodiano e à dramaturgia da redenção. Reinvenção do thriller homônimo de Abel Ferrara, tem mais humor, veneno e loucura que o original. Herzog encontrou em Nicolas Cage seu novo Klaus Kinski: postura de Nosferatu, cabelo do próprio Herzog, pique doidão de Cage mesmo. O tenente que usa o poder policial para alimentar sua dependência química e saldar suas dívidas de jogo é aqui uma bomba sempre prestes a explodir. E como estamos em território herzoguiano, não faltam visões de iguanas (filmadas pelo diretor), jacarés atropelados e almas dançando após um tiroteio. O mais inesperado, porém, é o humor impudente, quase tarantinesco, que Herzog imprime em todo o filme, com alguns momentos definitivamente antológicos. ♦♦♦♦





10 regras de etiqueta no Twitter

14 01 2010

Nos seis meses em que estou no Twitter, pude notar que certas condutas podem assegurar um fluxo claro e amigável de mensagens no microblog. Mas nem todo mundo parece ligado nessas regrinhas não escritas. A título de colaboração cidadã, escrevi esses 10 tópicos de etiqueta:

1. Poupe seus seguidores de overdose. Não sobrecarregue a caixa alheia com tudo o que lhe vier à cabeça ou parecer interessante repassar (retuitar). Dez ou doze tweets por dia parecem números razoáveis. A não ser que você seja uma agência noticiosa.

2. Esqueça a reciprocidade. Não se sinta obrigado a seguir quem lhe segue. Esse é o espírito do Twitter. Compreenda que muitos dos que você segue também não estão lhe seguindo. Portanto, nada de stress.  

3. Refreie a vaidade. Retuitar uma mensagem alheia de elogio a você, só quando contiver informação relevante ou alguma graça especial. Do contrário, vai soar tolo e cafona (isso mesmo, cafona).

4. Preserve o tweet alheio. Se quiser fazer algum comentário ou acréscimo ao retuitar uma mensagem, faça-o sempre antes do RT @…….. Se o seu plus aparecer depois, será interpretado como parte do que o outro disse.

5. Resista à facilidade do botão de retweet automático. Ele poupa o trabalho de recortar e colar, e por isso estimula o retweet indiscriminado. Pense bem se a mensagem vai interessar à maioria dos seus seguidores tanto quanto interessou particularmente a você.

6. Mencione a fonte da informação. Quando, em vez de retuitar, você vai repassar uma mensagem reeditada, sobretudo se ela for importante e/ou rara, dê o crédito a quem a enviou: (via @…….).

7. Direcione corretamente as respostas. Quando a resposta (reply) a um tweet só interessar àquela pessoa, sempre comece com @….. Se você escrever um caractere sequer antes disso, a resposta vai para todos os seus seguidores. Isso, quase sempre, é como ouvir conversa alheia sem saber o assunto.

8. Indique o assunto da resposta. Mencione uma palavra ao menos que indique sobre o que você está respondendo. Se não, a resposta pode chegar como um enigma.

9. Aproveite a privacidade. O Twitter tem o dispositivo da mensagem direta (direct message) para enviar tweets exclusivos. Use-o para assuntos de interesse particular em vez de coalhar a caixa geral. No caso de seguidores recíprocos, essa função é acessada a partir do menu da direita. Se você não segue o destinatário, mas ele o segue, basta entrar no Tweet dele e clicar “direct message to” no menu da rodinha dentada.

10. Seja diplomático. Use periodicamente o botão de pesquisa do seu username (na coluna da direita, logo abaixo de Home) para checar quem andou mencionando você ou retuitando suas mensagens. Se você não os segue, essa é a única forma de acompanhar. Daí podem resultar diálogos interessantes.

P.S. Por favor acrescentem ou discutam nos comentários 





Sarney por ele mesmo

12 01 2010

Quando completar 80 anos em abril, José Sarney terá uma comemoração em forma de documentário. Não, não estou falando do projeto de Silvio Tendler, anunciado há poucos dias. José Sarney, Um Nome na História já está pronto desde o ano passado. Foi o último trabalho dirigido por Fernando Barbosa Lima (1933-2008) na sua produtora FBL, concluído já depois de sua morte. Vai circular em DVDs e ser exibido na televisão.

O vídeo, bastante clássico, se organiza em torno de uma entrevista-base de Sarney, coadjuvada por alguns depoimentos de parentes e políticos, além de cenas de arquivo. O programa principal enfoca a infância e adolescência no Maranhão e a trajetória política que o levou, por uma artimanha do acaso, a ocupar a presidência da República de 1985 a 1990.  Continue lendo





O melhor amigo do cão

10 01 2010

Diversão de domingo:

Green Beret (Boina Verde), 2005

Se o cão é o melhor amigo do homem, William Wegman provou que essa amizade pode render muito diante de uma câmera. Na década de 1970, quando o vídeo chegou às mãos de artistas como ele, Wegman fez furor com as performances de seus weimaraners, uma raça inteligente conhecida como “cachorros com cérebro de gente”. Um deles, chamado Man Ray, entrou para a história da arte contemporânea em séries clássicas de fotos e vídeos.

Nos vídeos dos anos 70, os cães são manipulados pelo olhar, pelo apetite ou mesmo pelo toque físico do artista. O efeito é hilariante, embora role ao mesmo uma ternura no olhar triste dos weimaraners. Na seleção abaixo, de 9 minutos, estão alguns momentos antológicos dessa parceria. Chama atenção o trecho em que Wegman pratica uma manipulação sexual em Man Ray.

 

William Wegman, 67 anos, é também pintor e desenhista (conheça seu site). Seus trabalhos de artes plásticas conheceram uma grande evolução nas três últimas décadas, partindo do desenho tosco para telas rebuscadas e colagens divertidas. Em matéria de fotos, ele sempre foi genial – o Richard Avedon da expressão canina. Mas nos vídeos, Wegman trocou o preto-e-branco dos 70 pela cor e ficou um tanto aborrecido e presunçoso. Nada do que ele gravou recentemente parece ter o humor e a simplicidade de Stomach Song. Não deixe de ver essa pérola de pouco mais de 1 minuto. No site de Wegman, entre em Galeria, Vídeos 1970-77. É o primeiro.  

    





Elly desaparece para os outros “aparecerem”

8 01 2010

O cinema iraniano que aprendemos a amar se caracteriza por alguns ingredientes típicos. O estilo franciscano de Jafar Panahi ou Majid Majidi, por exemplo. Os deslocamentos no espaço e a metalinguagem de Abbas Kiarostami. O proselitismo político da família Makhmalbaf. Nada disso está presente em Procurando Elly, a mais nova grande revelação daquele celeiro de bons filmes. O diretor Ashgar Farhadi, em seu quarto longa-metragem, impõe-se como nova estrela a partir do Urso de Prata em Berlim e mais uma penca de prêmios internacionais. 

Elly traz acréscimos de sofisticação à narrativa do cinema iraniano. Como bem notou Ely Azeredo à margem de sua forçosamente sucinta resenha em O Globo, o filme evoca ingredientes de Antonioni, Hitchcock e Buñuel. As primeiras sequências, de um naturalismo aparentemente banal, apenas colocam as bases para o thriller emocional que vai envolver os personagens após o misterioso desaparecimento de uma moça na casa de praia. A partir daí, arma-se uma rede de dúvidas, expectativas, mentiras, intrigas, culpas e transferências que espelham dilemas éticos e morais de uma sociedade modernizada na superfície enquanto, em profundidade, permanece atada ao obscurantismo.  Continue lendo





Aplauso online

6 01 2010

Dos seis livros que escrevi sobre cineastas brasileiros, quatro foram para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de SP. A coleção coordenada por Rubens Ewald Filho, Marcelo Pestana e Carlos Cirne engloba biografias, roteiros, coletâneas de críticas e outros textos relativos a cinema, teatro e mais recentemente música. Os relatos biográficos são escritos em primeira pessoa, embora o trabalho de coleta, organização e redação seja feito por jornalistas e críticos. É um formato interessante, que tira do artista a tarefa às vezes indesejada de botar sua trajetória no papel.

Os livros da Aplauso agora estão disponíveis para leitura online no site da Imprensa Oficial. Os meus podem ser acessados diretamente aqui:

Carla Camurati – Luz Natural (2005)

Jorge Bodanzky – O Homem com a Câmera (2006)

Maurice Capovilla – A Imagem Crítica (2006)

Vladimir Carvalho – Pedras na Lua e Pelejas no Planalto (2008)

É muito bom encontrar seus livros na rede, à disposição de quem quiser folhear. Principalmente quando você já recebeu direitos fixos por todo tipo de publicação (uma merreca, tudo bem) e não depende do desempenho nas livrarias. Mas ainda não sei bem o que pensar sobre quem vive de uma parcela das vendas e topa com seu trabalho pirateado na internet. Tomei um susto quando vi meu primeiro livro, Walter Lima Júnior – Viver Cinema (2002) escaneado no Google Livros. Depois verifiquei que é uma visualização parcial, com muitas páginas saltadas – e até com páginas dobradas acidentalmente. Estou para ver um método de divulgação tão esquisito.

Quanto a Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real (2004), edição portuguesa que circulou pouco no Brasil, ainda penso uma forma de colocá-la na rede em breve. Mas primeiro preciso atualizar. Coutinho se reinventa tanto que fica difícil acompanhá-lo. 

 





Crítica carioca elege melhores de 2009

5 01 2010

Entre os Muros da Escola, o incrível mix de ficção e documentário de Laurent Cantet, foi eleito o melhor filme do ano pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Da votação na noite de terça, participaram 15 críticos, entre os quais eu não me incluí.

Os outros nove eleitos foram Bastardos Inglórios/Quentin Tarantino, Gran Torino/Clint Eastwood, Amantes/James Gray, Foi Apenas um Sonho/Sam Mendes, A Troca/Clint Eastwood, Beijo na Boca, Não/Alain Resnais, Deixa Ela Entrar/Tomas Alfredson, Abraços Partidos/Pedro Almodóvar e Cidadão Boilesen/Chaim Litewski.

Em breve será anunciada uma mostra retrospectiva desses filmes, seguidos de debates com a turma da ACCRJ.

Quem quiser comparar essa seleção com a minha pessoal verá que só dois títulos coincidem. Grupo não tem cara, é sempre assim.         





Memórias do Super 8

4 01 2010

Leia o update de Clóvis Molinari Jr. no final do texto

Se você tem mais de 35 anos, é provável que tenha pelo menos frequentado algumas sessõezinhas de Super 8. Fosse para ver as últimas travessuras das crianças, suportar as imagens tremidas da recente viagem do amigo ou babar com as proezas de alguma estrela pornô em cópias contrabandeadas. Talvez você tenha até cometido algumas filmagens com aqueles rolinhos e montado com cortadeira e coladeira que pareciam de brinquedo. Como eu, que, junto com meu amigo Julio Bronislawski, cheguei a vencer um festivalzinho em Campinas com um curta de desenlace amoroso inspirado na música de Piazzolla.

Mas se você tem menos de 30 anos, é capaz de nem saber o que é Super 8. Se bem que a bitolinha nunca tenha saído da mira dos documentaristas em busca de arquivos domésticos e tenha voltado à moda há algum tempo como diferencial estético em filmes experimentais. Os do Cao Guimarães, por exemplo. Para quem não conhece ou quer rever o fascínio portátil desse “outro cinema”, começa à meia-noite de segunda para terça no Canal Brasil a série Super 8 – Tamanho Também é DocumentoContinue lendo





Lula, o mito do Brasil

2 01 2010

Lula, o Filho do Brasil entrou ontem em cartaz com três entraves a sua vocação de grande sucesso de bilheteria. O primeiro diz respeito às resistências políticas de quem acusa o filme e seu personagem de oportunismo eleitoreiro. Exagero, uma vez que é cedo demais para surtir efeito em novembro e Lula não concorre a um terceiro mandato. De qualquer forma, é difícil lidar com um filme que narra positivamente a história de um presidente ainda no poder.  

O segundo entrave é o tempo decorrido desde que o filme ganhou seu pique de exposição, há mais de um mês. Festival de Brasília, pré-estreias, exibição para Lula, muitas opiniões na imprensa – e depois disso a sensação de que todo mundo já “viu”, mesmo quem ainda não assistiu.

Essa antecipação, de certa maneira, acabou servindo para cumprir um calendário que agora não poderia ser cumprido, com o diretor Fábio Barreto em coma induzido após o grave acidente que sofreu. O lançamento ocorre, portanto, com alguma reserva, sob o signo da preocupação com a saúde de Fábio. Esse, o terceiro entrave.  Continue lendo





Os melhores da década

31 12 2009

Nesse derradeiro suspiro do ano, eu devo estar sendo o último a divulgar sua lista de melhores da década. Se você já não aguenta mais tanta lista, navegue para outra página da web. Pode ser também que você seja daqueles rigorosos que consideram 2009 o nono ano da década, e listas como essas apenas fetiches de gente apressada. Se não for um caso nem outro, veja abaixo os filmes de longa metragem que mais apreciei entre os lançados comercialmente no Rio de Janeiro entre 2000 e 2009. Ao final, coloquei as listas dos melhores docs brasileiros e estrangeiros por enquanto exibidos somente em festivais, mostras, na TV ou na internet.   

Continue lendo





Melhores de 2009

29 12 2009

Eis a minha lista de melhores filmes lançados comercialmente no Rio de Janeiro em 2009:

Três Macacos

O filme mais cristalino e um dos mais bem estruturados do grande diretor turco Nure Bilge Ceylan. Mescla de policial e melodrama familiar repleto de suspense emocional e silêncios extraordinários. 

 

Desejo e Perigo

Transbordante de charme e erotismo, esse filme de espionagem na Xangai da II Guerra bebe nas melhores tradições do gênero. Mais uma demonstração da versatilidade e da precisão de Ang Lee.

 

É Proibido Fumar

Talvez a melhor comédia romântica já feita no Brasil, o filme de Anna Muylaert trouxe diálogos e interpretações impagáveis num roteiro de primeira. Um romantismo oblíquo, quase truncado, mas, por isso mesmo, muito verossímil.    

O Equilibrista

O vencedor do Oscar de documentário consagrou a mescla de procedimentos com a ficção para contar a história de uma travessura memorável. O encantador personagem de Philippe Petit ajudou o diretor James Marsh a fazer sua travessia.  

Entre a Luz e a Sombra

Um filme feito à mão, quase exclusivamente por Luciana Burlamaqui, trocou em miúdos algumas grandes questões do conflito social brasileiro e da consciência em torno dele. Um tour de force do doc de convivência.   

Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei

Das muitas cinebiografias documentais lançadas durante o ano, esta foi a mais complexa, discutida e bem-sucedida. Relançou o interesse pelo artista sem botar panos quentes na sua conduta pessoal e política.

 

 

Entre os Muros da Escola

Uma experiência real transformada em filme-limite sobre a representação. Contradições do sistema educacional expostas de uma maneira tão viva que parecia mexer com nosso estômago. Laurent Cantet em sua melhor forma.

 

Deixe Ela Entrar

Quando o gênero do filme de vampiro parecia condenado à noite eterna dos best-sellers, chega sangue novo nesse petardo do sueco Tomas Alfredson. Estilo, tema e ambiente numa equação perfeita.     

 

Foi Apenas um Sonho

A maturidade de Sam Mendes é uma bela exceção no panorama infantilizado de Hollywood. No purgatório conjugal desse filme, Mendes chega o mais perto possível do que seria um Bergman norte-americano.  

 

 

A Janela

Subvalorizado e pouco visto, esse último filme do argentino Carlos Sorin é uma maravilha de contenção e serena emotividade. A proximidade da morte é vista com o lirismo doce-amargo de Tchekov e Sokurov. 

 

 

Mais 10 destaques: Anticristo, Mataram Irmã Dorothy, Enquanto o Sol não Vem, Frost/Nixon, Arranca-me a Vida, Milk – A Voz da Igualdade, Jean-Charles, A Festa da Menina Morta, Besouro – Nasce um Herói, Cidadão Boilesen

Veja amanhã (quinta) minhas seis (!) listas dos melhores da década.





Conectividade ou morte

29 12 2009

Consciência ecológica, crítica à ganância geoeconômica, mensagem de respeito ao diferente – todas essas ideias edificantes circulam velozes pelas veias de Avatar. A floresta, ora jardim das delícias, ora inferno dantesco, é o palco para uma atualização de dois gêneros: o filme de alienígena e o filme de índio. Obedecendo à lógica instalada nos anos 1960, os “estranhos” é que são os heróis, enquanto o papel de vilão cabe à ideologia belicista dos terráqueos e brancos. 

Mas o que ancora toda a lógica politicamente correta do filme é algo bem mais contemporâneo. É o elogio da conectividade. O maior tesouro da civilização Na’vi é sua compreensão panteísta do universo, de que tudo está ou pode estar conectado. As árvores se comunicam, assim como homens e animais uns com os outros, corpos e espíritos. Conectar é “ver por dentro”, compartilhar energias e conhecimento.

Por isso os terráqueos beligerantes soam tão rudes e cínicos. Mais que tudo, eles são a retaguarda da desconexão. No seu egoísmo devastador, não têm noção da importância de compartilhar. Para eles, o mundo é pura matéria-prima para ser explodida e transformada segundo seus interesses. Para aqueles senhores da guerra, nada se conecta com nada, a não ser com um fim de conquista através dos avatares.    

O filme de James Cameron coloca vários temas clássicos para convergir num grande tema que interessa à mentalidade e à indústria tecnológica de hoje: um mundo que precisa da conectividade para ver as coisas por dentro e, quem sabe, se salvar de um horizonte de autodestruição. Conecte-se, ou será desconectado para sempre.              





Nelson na loja de louças

28 12 2009

Desde que Nelson Pereira dos Santos tomou posse na Academia Brasileira de Letras, os imortais passaram a conviver mais intimamente com o cinema. O assunto incorporou-se ao menu dos chás, e um cineclube semanal exibe adaptações literárias no auditório. Nada mais natural que Nelson, além de levar o cinema à ABL, levasse a ABL ao cinema.

O doc Português, a Língua do Brasil é uma coletânea de depoimentos e minipalestras dos acadêmicos sobre as delícias e os dilemas do idioma. O filme passou na semana passada, em sessão única diária às 14h, no Estação Laura Alvim. Você certamente não foi lá, mas… quem foi? Na sessão a que compareci, na antevéspera do Natal, éramos cinco pessoas na sala. A bilheteira me disse que quase todos os lugares haviam sido previamente comprados (por alguma instituição, suponho), mas que ninguém haveria de aparecer.

Sendo assim, passo a contar o filme, pois, afinal, é assinado pelo mais importante cineasta brasileiro vivo. Nele, Nelson está em casa, mas só em termos. Com exceção de duas cenas, tudo foi filmado nos interiores da ABL, um cenário que impõe certa formalidade entre escritores de terno e gravata. Nelson encena encontros com os colegas em diferentes recintos dos prédios moderno (Palácio Austregésilo de Athayde) e tradicional (Petit Trianon). Vale como tour da Academia para quem não a conhece por dentro.

No tom um tanto cerimonial das conversas, Nelson parece mais ouvir do que conversar. Sua postura sugere um certo engessamento, como um velho malandro tentando não dar vexame numa loja de louças. Fala-se da necessidade de “manter a juventude” da língua, de sua natureza de “organismo vivo” e do contraste entre a grande diversidade do português e sua unidade que facilita a comunicação. Discutem-se a importância da “norma culta” e a relação da língua oficial com os regionalismos e coloquialismos.

Pode soar como um silogismo barato, mas as falas de Nélida Piñon e Ana Maria Machado soam menos compenetradas e mais coloridas que as da maioria dos homens. Isso me fez pensar em até que ponto o paletó e a gravata enrijecem o discurso. As exceções masculinas são justamente João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, entrevistados em suas casas, em mangas de camisa. Aí o cânone se quebra e imperam a descontração e a fala livre.

Há 45 anos, Nelson Pereira dos Santos dirigiu com os primeiros alunos da UnB o curta Fala, Brasília, um ensaio documental sobre os diversos falares reunidos na nova capital. Português, a Língua do Brasil, com seu oficialismo assumido acriticamente, não é um eco, mas um contraponto àquele vibrante filme brasiliense. O cineasta que trouxe a expressão popular para o cinema brasileiro recolhe agora as razões da expressão culta.





Boilesen, braço civil da ditadura

26 12 2009

O ótimo roteiro de Cidadão Boilesen constrói três narrativas paralelas. Uma se refere à história da Operação Bandeirante (Oban), que reuniu empresários e militares na repressão ao ativismo de esquerda nos primeiros anos da ditadura. Outra reconta as circunstâncias do atentado contra Henning Boilesen, dono do grupo Ultra e um dos principais financiadores da caça aos ativistas. Uma terceira narrativa faz o estudo do personagem Boilesen, definido em certo momento como “uma síntese das contradições humanas”, ou algo parecido.

A forma como essa três linhas convergem e se articulam responde pela eficiência do filme, premiado na competição nacional do É Tudo Verdade de 2009.  Continue lendo





Garrafas festivas

24 12 2009

Esta foi a mensagem de Natal que enviei aos meus amigos e estendo aqui a todos os visitantes do meu blog:

Cor, sabor, bom-humor
 
 
Corniglia, Itália, 2009
 
O que mais posso desejar a você nesse Natal?
Ah, sim, muito amor!




Linduarte e as intrigas paraibanas

22 12 2009

Eliane Giardini em "O Salário da Morte"

A história do cinema na Paraíba tem lances épicos como Aruanda e O País de São Saruê, mas também pode ser contada pelo lado da intriga provinciana. E, em ambos os casos, envolve com frequência o nome de Linduarte Noronha.   

É bem conhecida a polêmica em torno do roteiro de Vladimir Carvalho e João Ramiro Mello para Aruanda (1960), cujos créditos não foram reconhecidos por Linduarte. Cinco anos depois, quando passou por João Pessoa para rodar Menino de Engenho, Walter Lima Jr. sentiu a ciumeira da turma de Linduarte. Este enviou uma carta a Glauber Rocha falando de “balé de intrigas” a respeito do filme na Paraíba. “Todo mundo é produtor da fita. Notícias as mais cavilosas circulam nos jornais diários”.   Continue lendo





O doc vai subir a serra

21 12 2009

Alô, turma de Petrópolis. Em janeiro e fevereiro eu darei um curso sobre documentário brasileiro contemporâneo no SESC-Quitandinha. As sete aulas serão às quintas-feiras, das 16h às 19h. Para informações sobre inscrições, o telefone é (24) 2245 2020.

A ideia do curso é examinar como o documentário brasileiro contemporâneo, prestigiado no país e no exterior, longe de ser um rótulo, é um feixe de métodos e linguagens que fazem sua riqueza. Vamos estudar cada uma dessas alternativas, a partir da obra de cineastas fundamentais como Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Evaldo Mocarzel, Kiko Goifman e outros. Além disso, vamos situar a nova fase em relação à história do documentário brasileiro e às influências internacionais que sobre ele se exerceram desde os anos 1960.      

Todas as aulas serão ilustradas com a exibição de trechos de documentários e alguns filmes na íntegra.

O temário dos encontros será o seguinte:

Dia 7/1: Discussão do conceito de documentário e das principais teorias. Rápido panorama histórico do documentário brasileiro até a década de 1980.

Dia 14/1: Cinema-verdade e cinema direto: métodos que engendraram o documentário moderno. Seus primeiros frutos no Brasil e sua herança atual. O documentário sociológico.

Dia 21/1: Eduardo Coutinho: realidade, representação e depuração na estratégia do encontro. A autoficção.

Dia 28/1: João Moreira Salles, Maria Augusta Ramos etc: a observação como postura e como dramaturgia.

Dia 4/2: Kiko Goifman, Sandra Kogut etc: o documentário pessoal. As novas releituras do filme doméstico. O caso Santiago.

Dia 11/2: Evaldo Mocarzel, Roberto Berliner, Paulo Sacramento, Andrea Tonacci etc: problematização da entrevista, metalinguagem, convivência, transferência de meios e reflexividade.

Dia 25/2: Tradição e invenção. Heranças do documentário clássico: Ônibus 174, biografias, documentários musicais. O documentário de invenção: Cao Guimarães, Joel Pizzini, Arthur Omar etc. O pseudo-documentário no Brasil.