Um filme com fome de realidade

10 11 2009
Entre a Luz e a Sombra

Luciana coleta autorização de Marcos Omena/Dexter

Estreia no próximo dia 27 um dos melhores filmes brasileiros do ano. Tem amigos que se reencontram na prisão, tem amor entre classes sociais distintas, tem separações, tem rap, sucesso e celebridades. Tem o céu e o inferno correndo nas veias de um incrível documentário.

Entre a Luz e a Sombra é produto da competência e da perseverança de uma jovem realizadora que aprendeu (com Jon Alpert) a filmar a realidade sozinha. Fazendo ela mesma imagem e áudio, a mineira Luciana Burlamaqui começou a gravar, em 2000, os encontros dos rappers presidiários Dexter e Afro X e da atriz Sophia Bisilliat com jovens da Febem em São Paulo. Dexter e Afro X, amigos de infância na periferia de São Bernardo do Campo, formavam então o bem-sucedido grupo 509-E (número da cela que o destino os fez dividir no Carandiru). Dexter tinha um romance com Sophia, que desde os anos 1980 realizava trabalhos de humanização da vida carcerária através da arte.

Luciana, já uma experiente repórter de TV, mas insatisfeita com a prática de documentar situações sem aprofundamento, viu ali os ingredientes de um bom doc de processo, desses que capturam o desenvolvimento de um assunto no tempo. Nesses casos, é impossível definir se é o cineasta que se apega ao tema e aos personagens, ou se são estes que se impõem como algo a acompanhar. Não importa. Luciana seguiu gravando o cotidiano dos três ao longo de sete meses. Depois, fez atualizações pontuais durante sete anos. O que ela nos entrega agora é um espantoso testemunho da crise social brasileira, junto com uma complexa reflexão sobre a consciência da classe média diante do mundo do crime.

Voltarei a falar de Entre a Luz e a Sombra aqui no blog. Por enquanto, deixo apenas um alerta para a chegada desse belo trabalho, que já ganhou prêmios no exterior e está fazendo pré-estreias em comunidades e universidades. Ele engole com sua fome de realidade todas as recentes ficções sobre a violência urbana brasileira. Não tem cenas de ação nem estereótipos de roteiristas espertos, mas um tenso e surpreendente retrato de vidas que se constroem, em tempo real, diante dos nossos olhos. Vocês não perdem por esperar. Vejam o trailer:





Bodanzky relembra Lévi-Strauss

9 11 2009

No livro que fiz com/sobre ele, Jorge Bodanzky rememora seu encontro com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em fins dos anos 1980. Transcrevo abaixo esse trecho de Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado SP, 2006):

Mato Grosso: memórias de Lévi-Strauss

Minha relação com o livro Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, levou cinco anos para se transformar em filme.

Em 1985, enquanto montava Igreja dos Oprimidos em Paris, cometi a imprudência de fazer a proposta diretamente a Lévi-Strauss por telefone, e ainda por cima no meu péssimo francês. Eu queria voltar às aldeias indígenas do Mato Grosso que ele visitou em 1935 e 1938 para verificar o seu estado atual, assim como a memória que ainda houvesse dos encontros, a partir das suas fotografias e dos filmes que sua mulher, Dina, rodou na ocasião. Lévi-Strauss não foi especialmente gentil, mas pediu que lhe mandasse uma proposta por escrito. Foi o que fiz. Poucos dias depois, recebi uma resposta amável, autorizando a referência ao seu livro e o uso dos filmes. Mais que isso, ele se dizia “vivamente interessado em rever, filmadas por você no seu estado atual, as regiões que percorri há meio século”. Continue lendo





O affair Frodon

7 11 2009

Os brios dos cineastas brasileiros foram atingidos esta semana por uma entrevista do crítico francês Jean-Michel Frodon à Folha de S. Paulo. Convidado para o júri da Mostra Internacional de Cinema de SP, Frodon, ex-colunista do Le Monde e ex-diretor da Cahiers du Cinéma, desancou a produção brasileira com palavras duras:

 FOLHA – Como vai o cinema brasileiro?
JEAN-MICHEL FRODON
– É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria. O último filme brasileiro do qual eu gostei foi “Mutum”. Continue lendo





Os muitos trânsitos de Vivian Ostrovsky

5 11 2009

Copacabana BeachVivian Ostrovsky apresenta um programa especial no Curta Cinema nesta sexta-feira, às 20h30 21h30, no Odeon. Serão exibidos Copacabana Beach, Ice/Sea, P.W., Télépattes, The Title Was Shot e Tatitude. A pedido de Aílton Franco Jr., escrevi o seguinte texto para o catálogo do Festival:

   

Os cinco curtas escolhidos por Vivian Ostrovsky para este programa dão uma ideia da diversidade de procedimentos utilizados pela realizadora, mas também evidenciam alguns traços comuns numa obra marcadamente pessoal. A primeira ideia que se impõe é a do trânsito.

 Jet Lag é como se chama a produtora de Vivian. Nome escolhido a dedo por uma artista que vive em trânsito entre Nova York, Paris, Rio, Moscou, Jerusalém e outros tantos lugares. “Minha ambição é ser uma luftmensch, uma pessoa do ar”, diz. Seu cinema é marcado por esse trânsito – cenas colhidas no cotidiano por alguém que é íntimo e visitante ao mesmo tempo. Continue lendo





Celebração trash de uma memória

4 11 2009

Gosto de me pensar como uma pessoa politicamente correta – ou pelo menos que almeja sê-lo. Não me envergonho disso. Acho que a correção política é uma conquista, não uma praga dos nossos tempos. Não compartilho da campanha contra o politicamente correto, movida pelos cínicos de plantão. Para mim, ela é parte do relativismo selvagem e da canalhice da-boca-para-fora que soam moderninhos por aí.

Portanto, a julgar pelo que tenho ouvido de gente que respeito, tinha tudo para odiar Alô Alô Teresinha. E se odiasse, estava disposto a crivar o filme de balas politicamente corretas, mesmo sendo amigo e colega de profissão do diretor, o também crítico Nelson Hoineff. Qual não foi minha surpresa quando isso absolutamente não aconteceu.  Continue lendo





Dois eventos da pesada

2 11 2009

São eles: a mostra Olhares Desinibidos, no Instituto Moreira Salles, e a sessão especial de 12 anos da Cavídeo no Odeon. Vamos a cada um:

Continue lendo





Expressões amazônicas

1 11 2009

o areal

Um areal no Pará, uma comunidade de quilombolas em Marajó e um vendedor de picolés de Manaus valeram os três prêmos Muiraquitã da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico, encerrada ontem à noite em Manaus. O Areal (foto acima), doc exibido na Mostra Meio-ambiente do último Festival do Rio, foi o que mais agradou o júri, composto pelo escritor Marcio Souza, o antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, a pesquisadora Stella Oswaldo Cruz Penido e este escriba. Abaixo, transcrevo uma microresenha do filme que eu já havia feito aqui no blog:  Continue lendo





Jurandyr Noronha e eu

1 11 2009

Jurandyr pqAbro espaço para o release do programa Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos, que dirigi para a série Retratos Brasileiros e estreia hoje, às 18 horas, no Canal Brasil. A quem assistir, repito o que disse em e-mail aos amigos: apreciem a grandeza do trabalho do Jurandyr e desculpem as insuficiências do meu.

 

Estreia no domingo, dia 1º de novembro, às 18 horas, na faixa Retratos Brasileiros do Canal Brasil, o programa Jurandyr Noronha: Tesouros Quase Perdidos. Aos 93 anos, o veterano documentarista, pesquisador e escritor reconta sua trajetória, que começou nos anos 1940. Jurandyr Noronha trabalhou com Adhemar Gonzaga na Cinédia, com Humberto Mauro no Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi cinegrafista do DIP de Vargas e realizou dezenas de documentários, entre eles os longas-metragens Panorama do Cinema Brasileiro, 70 Anos de Brasil e Cômicos + Cômicos. Continue lendo





Cabeças cortadas em Marajó

30 10 2009

Onde mais eu poderia ver um documentário sobre a Ilha de Marajó senão na Mostra Amazônica do Filme Etnográfico? Pois aqui vi dois. Um deles foi dirigido pelo canadense Gavin Andrews. O Glorioso retrata a festa em homenagem a São Sebastião na cidade de Cachoeira do Arari. O santo do corpo flechado há muito roubou a cena da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, e sua festa mobiliza gente de toda a ilha e também do Pará.

A partir da festa (10 a 20 de janeiro) e de sua longa preparação desde seis meses antes, o filme faz uma etnografia da culinária, das lutas corporais e do sincretismo religioso típicos da cultura marajoara. Mas, com uma limitação frequente nesse tipo de doc preso aos rituais, passa ao largo de qualquer observação social.

O mesmo não acontece com Salvaterra, Terra de Negro, da paraense Priscilla Brasil (autora do irresistível As Filhas da Chiquita, sobre travestis que festejam o Círio de Nazaré). Em Salvaterra, diversas comunidades de descendentes de quilombolas de Marajó são visitadas através de personagens fortes, como um líder popular, um praticante do culto bárbaro da Cabocla Erondina e uma jovem que se diz herdeira da luta de Zumbi. Nesse doc muito bem realizado, o estudo etnográfico convive bem com a questão social.

Em Marajó, muitas comunidades populares vivem progressivamente comprimidas por fazendas que demarcam seus limites com cercas eletrificadas. Priscilla Brasil contrapõe a alegria das festas e a intensidade dos rituais à denúncia desses campos de concentração. O efeito dramático é poderoso.

No entanto, para quem conhece a realidade de Marajó, a extensão do problema ainda não foi exposta por nenhum filme. O antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, meu colega de júri, explicou-me que a festa de São Sebastião é o único período do ano em que os proprietários facultam a travessia das cercas pelos pequenos lavradores e suas famílias. Quando essa regra é desobedecida em outra época, a punição não é pequena: cabeças são cortadas e jogadas no rio.





Ele voa!

29 10 2009

Besouro

Besouro vem aí. Posso prever que não será unanimidade entre os críticos. Não temos uma cultura de filmes do gênero aventura épico-mítico-histórica. Tendemos a rejeitar espetáculos que se pretendem grandiosos, com técnicas importadas e sem justificativas sociológicas eloquentes. Já ouvi comparações irônicas como “Quilombo 2 – A Missão”.

Mas Besouro corre em pista bem diferente. É aventura destinada a um público diversificado, que inclui o infanto-juvenil. A formação do mítico capoeirista baiano é contada como uma história de mestre e discípulo na linha Karatê Kid. O surgimento do herói se dá à base de culpa por um descuido na proteção ao mestre. Seus poderes sobrenaturais vêm do encontro com um Exu que reúne traços de guerreiros africanos, orientais e medievais. A rivalidade entre colonizadores brancos e lavradores e serviçais negros tem o sabor um tanto esquecido dos nordesterns. Já as lutas de Besouro ganham o caráter vertiginoso de O Tigre e o Dragão, tendo bananeiras no lugar dos bambuzais de Ang Lee.

Ungido por Exu, Besouro é capaz de incorporar-se em outras pessoas e transmitir sua força. Mas tem um ponto fraco, a sua kryptonita. Esse talvez seja o primeiro superherói afro-brasileiro explícito do cinema, o oposto da sátira subdesenvolvida encarnada pelo Superoutro de Edgar Navarro. Aqui a técnica aspira o top de linha da aventura contemporânea, com imagens de tirar o fôlego. É admirável como o filme integra a alta tecnologia com elementos da natureza tropical. Basta ver a importância dos rios, ventos, fogo, animais e paisagens brasileiros no protagonismo da trama.

Não fosse o roteiro fragmentado demais, eu teria sido mais incisivo na defesa do filme na comissão de seleção do Oscar. João Daniel Tikhomiroff quer dialogar com o cinema de gênero internacional sem deixar de fazer um filme mestiço bem brasileiro. Besouro deve ser prestigiado não apenas por ser nosso, mas por ser um belo e luxuriante espetáculo popular.         





Manaus moments

28 10 2009
Abertura

Adrian Cowell, Vicente Rios, Stela Oswaldo Cruz e Sidney Possuelo na abertura da Mostra

No avião: Sally é uma senhora inglesa com jeito de fazendeira sentada ao meu lado. Começo a ver um doc amazônico no notebook e ela puxa conversa. Diz que há quatro meses mora numa “property” a três horas de carro e barco de Manaus. Não fala uma palavra de português e ainda não sabe a diferença entre um tambaqui e um tucunaré. Isso aqui continua um paraíso de aventureiros.

Na abertura da IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico: Toda orgulhosa, Selda Vale Costa conta que, entre os 45 vídeos participantes, 12 foram realizados por amazonenses. Até o ano passado eram 3 ou 4. Comunica ainda que Belém terá um curso universitário de cinema a partir de 2010, o primeiro da região.

Na homenagem a Adrian Cowell: Ele explica por que resolveu doar seus filmes brasileiros à Universidade Católica de Goiás: “Primeiro, porque meu parceiro, Vicente Rios, é de lá. Depois, porque devo isso ao Brasil, que sempre me deu muito. Nunca tive dificuldade para filmar aqui. Lembro que um dia chegamos com duas câmeras numa fazenda acompanhando um fiscal do IBAMA que ia multar o proprietário. É claro que ele não assinaria um papel autorizando as imagens de sua punição por um crime ambiental. Mas, para minha surpresa, ele assinou!”

Na noite de autógrafos: Difícil é entender os nomes dos compradores dos livros, mesmo escritos no papelzinho: Kherleson, Randisa, Ladilce, Solyene…

No jantar: Adrian Cowell, Vicente Rios e o sertanista Sidney Possuelo (Serras da Desordem) me contam momentos de medo extremo em suas aventuras: quedas de avião, filmagens em ultraleves desgovernados, cano de revólver na boca quebrando os dentes, fogo cruzado entre guerrilheiros na Birmânia, quatro índios correndo atrás com flechas apontadas. Taí um bom tema para uma coletânea de aventuras reais: “O dia em que senti medo”.

Na volta para o hotel: Cowell e Rios lamentam que Andrea Tonacci tenha usado cenas de seus filmes em Serras da Desordem sem autorização. Na conversa, as coisas acabam se esclarecendo: Tonacci comprou as imagens à empresa Verbo Filmes, que no entanto não possuía mais os direitos. Ah, os bastidores dos documentários…    





Maratona manauara

27 10 2009

Mostra AmazoniaNa manhã de hoje (terça), embarco para o Norte. É minha primeira viagem desde que operei o joelho. Ainda não estou curado, vivo à base de fisioterapia, mas tenho que tocar a carroça pra frente. Toco pra Manaus, a convite da minha “irmã” pesquisadora Selda Vale Costa. Vou cumprir uma maratona de atividades na IV Mostra Amazônica do Filme Etnográfico.

Além de integrar o júri, vou autografar meus livros sobre/com Jorge Bodanzky e Vladimir Carvalho, fazer uma palestra sobre Realidade e Representação no Cinema Brasileiro Atual e participar de uma mesa-redonda sobre a obra brasileira do documentarista Adrian Cowell. Ele é o homenageado especial com uma mostra de seus filmes há pouco tempo entregues à guarda da Universidade Católica de Goiás (leia meu artigo no DocBlog sobre o assunto).

A mostra é realizada pelo Núcleo de Antropologia Visual da Universidade Federal do Amazonas. Da competição participam o mais novo filme de Bodanzky, De Volta ao Terceiro Milênio, e alguns títulos elogiados recentemente, como Expedito em Busca de Outros Nortes, de Aída Marques e Beto Novaes, e O Areal, de Sebastián Sepúlveda, exibido no Festival do Rio. A paulista Lina Chamie vai apresentar seu Amazônia, BR, trabalho de videoarte.

Até sábado vou mandando notícias por aqui e pelo Twitter.

A postos, joelho ingrato!





Machado redivivo no Cosme Velho

26 10 2009

No último fim de semana, passei bons momentos sob os eflúvios de Machado de Assis. No Casarão Austregésilo de Athayde, ali bem perto de onde morava o “Bruxo do Cosme Velho”, um grupo liderado por Gisela de Castro está encenando – melhor seria dizer “degustando” – o conto Linha Reta e Linha Curva.

O espetáculo habita – não sem certa ironia carinhosa – os espaços externos e internos do casarão onde viveu o ex-presidente da ABL. A plateia, limitada a 40 pessoas, é tratada como visitantes de uma mansão do século 19, tendo a sua disposição até mesmo leques para afugentar alguma eventual onda de calor. A doce sensação de intimidade em tudo colabora para envolver o público na atmosfera do conto. Continue lendo





As mil e uma histórias do MediaStorm

24 10 2009

Eu e o jornalista e escritor sergipano Paulo Lima somos assíduos leitores recíprocos. Ele edita o site Balaio de Notícias e não só ama documentários, como também se arrisca na produção independentíssima. Foi o Paulo que me chamou a atenção, recentemente, para o site MediaStorm. Pedi, então, que se encarregasse de apresentá-lo a vocês, caso ainda não conheçam. Aí vai o seu texto:

Um deleite visual

por Paulo Lima

Na paisagem desmesurada da internet, sites como o MediaStorm mostram que a combinação criativa de dispositivos pode resultar em vídeos de grande impacto e beleza. Patrocinado pelo Washington Post, o MediaStorm reúne um acervo de vídeos abordando um universo bastante variado de temas que vão desde denúncias – casos do mercado negro de animais em regiões da Ásia -, até histórias de sobreviventes de dramas e conflitos, como o massacre de Ruanda, a invasão de Falluja pelas tropas americanas e o desastre do Katrina. Continue lendo





“Distrito 9” e a nova ficção

23 10 2009

Nos cerca de 40 minutos iniciais está o que realmente me interessou em Distrito 9. Pois este é um filme que sobrevive da sua premissa: um contingente de alienígenas chega a Johanesburgo e é isolado pelos humanos numa espécie de acampamento de refugiados. O roteiro é hábil e sucinto na criação de uma metáfora não só para o antigo apartheid sul-africano, mas para o drama dos imigrantes, refugiados, proscritos de todas as naturezas. Vêm à mente desde Guantánamo às periferias das grandes cidades.

District 9

O processo decorre inevitável: guetificação, favelização, vigilância, repressão, surgimento do apelido, exploração pelo submundo local. O interessante personagem do agente Van De Merwe (nome típico dos afrikaners brancos) aos poucos se converte num boneco de game, acompanhando a mutação do filme de parábola sociológica em mero gato-e-rato, barulhento e hiperativo.

Mas antes que isso aconteça, lá naquela parte inicial, Neill Blomkamp narra os acontecimentos à maneira de documentários e telejornais. Esse procedimento, longe de conferir “autenticidade” ao que se vê, apenas lança mão de uma lógica expositiva que virou, em si, um tipo de espetáculo. Vemos aquele picadinho de narrações, cabeças falantes, flagrantes rápidos em vídeo precário etc como uma forma de fabulação que está no nosso cotidiano. Tão funcional e dramática como qualquer outro conteúdo. A linguagem documental ou jornalística não mais contamina a ficção com uma impressão de verdade. Ela é a nova ficção.





Projeção digital: o debate continua

22 10 2009

Após a divulgação da carta aberta de críticos brasileiros aos responsáveis pelas más condições do cinema digital entre nós, a empresa responsável pelo sistema Rain respondeu minimizando o assunto, como se ele se restringisse apenas a mostras e festivais. Leia no blog do Zanin.

Em comentário enviado diretamente a mim, a respeito do post “O cinema digital na berlinda” (veja mais abaixo), Luiz Gonzaga Assis de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro e vice-presidente da Federação Nacional dos exibidores, fez uma minuciosa análise da situação. “Cinema digital está se convertendo em cinema de baixa qualidade por aqui, quando a proposição é de se ter a melhor qualidade, com menos manipulação dos originais e com a garantia de se ter uma cópia absolutamente igual ao original.”, afirma.

Luiz Gonzaga defende o padrão DCI, mais dispendioso, mas capaz de preservar a qualidade e o formato das cópias 35mm. Quanto à Rain Networks, reconhece a maior adequação à nossa realidade, mas explica os inconvenientes de ter que fazer ajustes “artesanais” para cada filme exibido. Aí é que os descalabros acontecem entre os originais e o que se vê nas telas.

“A única questão que posso assegurar pela minha experiência de quase 35 anos atuando em cinema, a maior parte deles trabalhando com tecnologia, é que cinema digital é bom”, garante. “Na pior das hipóteses, equipara ao 35mm. Na melhor das hipóteses, é que cria condições ímpares de exibir conteúdos que não poderiam ser exibidos em cinema. É só fazer direito o que tem que ser feito. O que é fazer direito? É seguir as normas técnicas.”

Clique aqui para ler o arrazoado completo de Luiz Gonzaga Assis de Luca.





Rio sarado e gingado para gringo ver

21 10 2009

Corpo do Rio

Os clichês de uma certa imagem do Rio de Janeiro abundam (literalmente) em Corpo do Rio. Uma imagem que parece endereçada ao consumo estrangeiro, com mulatas esfuziantes, praias de contornos sensuais, sambistas falantes, favelados sorridentes e garotas de programa bem dispostas. Mas também uma imagem dirigida à consciência de um suposto consumidor de documentários, com ex-meninos de rua que se salvaram, discursos sobre a desigualdade social e paralelos retóricos entre patricinhas ególatras da Barra e meninas bonitas de comunidade da Zona Norte.

O filme de Izabel Jaguaribe e Olívia Guimarães, embora alegadamente baseado no livro Mapa do Maravilhoso no Rio de Janeiro, de Beatriz Jaguaribe, parece ter saído em campo sem mapa. Começa como um estudo dos corpos cariocas, naquilo que gente e cidade teriam em comum, ou seja, a sensualidade. De súbito, dobra uma esquina sociológica bem óbvia, como se tivesse que cumprir uma pauta-padrão de docs sobre o Rio. Vem então a cidade dividida entre morro e asfalto, visíveis e invisíveis sociais, sagrado e profano, corpo e espírito. E ainda mais que de repente, um clipão de carnaval conclui o passeio sem deixar souvenir mais encorpado que um interessante (mesmo) esclarecimento de Luma de Oliveira sobre o segredo de seu sucesso: é a alma.

Em co-produção com a Argentina e com participação francesa, Corpo do Rio deixa transparecer um formato de doc de exportação, tentando conciliar o espetacular da Cité Merveilleuse com o repertório social de praxe. Gente pobre e feliz que se exibe para uma câmera também exibicionista, carregando supostamente no corpo as contradições do país e, na camiseta, uma frase espirituosa. Uh-la-lá!

Texto publicado originalmente no DocBlog, em 2/10/2008 (Festival do Rio)





Santos Dumont, Darwin e INCE na festa da Ciência

20 10 2009

A 15ª edição da Mostra Ver Ciência começa hoje no CCBB-Rio, com patrocínio da Petrobras. Trata-se de uma mostra de programas de TV, mas não basta ligar o seu aparelho para ver muitas coisas legais que estão na programação.

Uma delas é o programa Asas da Loucura, da rede pública americana PBS. Realizado em 2006 e inédito no Brasil, faz o reconhecimento tardio – mas explícito – da primazia de Santos Dumont na invenção do avião. Os americanos enfim admitem, pelo menos, que os Irmãos Wright trabalhavam na encolha, enquanto o brasileiro voava primeiro diante do público.

Os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies ganhou uma seleção de novíssimos docs e reportagens da BBC e de várias emissoras brasileiras. Darwin, naturalmente, é uma das estrelas da mostra este ano. Mas brilham também 16 cientistas brasileiros retratados em nova série do Globo Ciência (Canal Futura), a ser exibida na íntegra no CCBB.

Um dos grandes destaques da 15ª Mostra não tem origem na televisão, mas no extinto Instituto Nacional do Cinema Educativo. São 14 filmes de curta e média metragem recentemente restaurados e digitalizados pela Cinemateca Brasileira, com verbas dos Ministérios da Cultura e da Ciência e Tecnologia. Vários trazem a assinatura de Humberto Mauro. O mais curioso talvez seja o doc+drama O Segredo das Asas, em que um oficial da FAB faz pouso forçado no pasto de uma fazenda e passa a relatar a formação de aviadores a uma bela moça rendeira. É supimpa!

Os filmes do INCE incluem títulos há muito fora de circulação, como A Medida do Tempo, de Jurandyr Noronha, um doc de 1964 que conta com a ajuda da animação.

Veja a programação completa no site da mostra, que só vai até domingo.





O cinema digital na berlinda

18 10 2009

Uma boa e uma má notícia sobre o cinema digital.

A boa notícia é o recente lançamento do livro A Hora do Cinema Digital – Democratização e Globalização do Audiovisual, de Luiz Gonzaga Assis de Luca. A parca existência de estudos brasileiros (menos ainda publicados) sobre o cinema pelo seu viés tecnológico-industrial torna esse trabalho de suma importância. O autor retoma e aprofunda o tema de seu livro anterior, Cinema Digital – Um Novo Cinema, também da Coleção Aplauso/Imprensa Oficial do Estado de SP. Conta a história das transformações vividas pela exibição cinematográfica no Brasil e no mundo, e analisa o fenômeno da convergência digital, em que filmes, televisão, shows e jogos trafegam entre plataformas e decretam o fim da era das segmentações absolutas.  Continue lendo





Saura engessa o fado em museu

17 10 2009

Fados

A evolução dos filmes musicais de Carlos Saura, a começar por Bodas de Sangue (1981), mostra um crescente abandono dos pretextos de dramaturgia para assumir, cada vez mais, a forma de shows. Fados é um dos mais assumidamente teatrais, consistindo de uma série de performances de estúdio que mal disfarçam a repetição de uma mesma fórmula. Repetição dentro do filme e na carreira de Saura, se considerarmos Flamengo, Sevillanas e Iberia.

Telões de vídeo e espelhos multiplicam a imagem de cantores, músicos e dançarinos (a cenografia é assinada pelo próprio Saura). Quase todos os “números” terminam com o mesmo escurecimento da imagem. E, como em Iberia, a última cena é uma “revelação” do estúdio e seus recuos técnicos através de uma grua que se move em direção a um espelho. Mero exercício de metalinguagem pomposo, narcisista e vazio.

Um após outro, desfilam os fados de Cabo Verde e Moçambique, o fado flamengo, o alfacinha, o menor, o batido. A busca de excelência nas performances engessa o espetáculo numa espécie de museu do fado. Mulheres super-maquiadas, cada mecha de cabelo e cada acorde em seu devido lugar. Não sobra um milímetro de cena para qualquer espontaneidade.

Caetano Veloso foi agraciado com o momento mais icônico do filme. Cabe a ele estrelar a homenagem a Amália Rodrigues, cantando Estranha Forma de Vida com sotaque lusitano, em falsete e com batida de Bossa Nova. É ousado e bonito. A Chico Buarque tocou a porção política: canta Fado Tropical à frente de imagens da Revolução de Abril. Nacionalismos à parte, esses dois momentos valem o ingresso para o público brasileiro.

No mais, Saura hiperformaliza o fado num filme de elegância cafona. Nele, as ruas de Alfama aparecem como fantasmas virtuais, sem cheiro e sem vida.

(Texto publicado originalmente no DocBlog, em 29.09.2007)





“Person” e “Maestros” no lugar certo

16 10 2009

Dois recentes lançamentos da Videofilmes colocam os respectivos documentários no seu devido lugar: o DVD.

Nem Person, o sensível perfil do cineasta Luís Sérgio Person por sua filha Marina, nem Café dos Maestros, making of de um show de veteranos músicos de tango, teve carreira significativa nas salas de cinema. Talvez pelo simples motivo de que foram concebidos como peças intimistas, daquelas que rendem melhor na fruição individual, ou com um pequeno grupo de amigos.

Person tem no desenho “familiar” sua maior virtude, além de contar, claro, com uma boa seleção de cenas da obra do autor de São Paulo S.A. e O Caso dos Irmãos Naves. A figura de Person vai surgindo das memórias das filhas Marina e Domingas, num processo que visa, ao mesmo tempo, conhecer e dar a conhecer a personalidade e o trabalho do pai. Daí esse caráter de investigação sentimental, propícia a ser vista em casa, com calma e afetividade.

Café dos Maestros, dirigido por Miguel Kohan, tinha já as feições de um extra de DVD para o show dos músicos argentinos no Teatro Colón. No cinema, mais parecia uma variação requentada do seminal Buena Vista Social Club. Reconduzido a seu suporte adequado, o filme ganha corpo e destila melhor seu charme portenho. E ainda traz como extra um material inédito do concerto do Colón.

Leia aqui a resenha de Café dos Maestros por Patricia Rebello no velho DocBlog





Tarantino na guerra de opiniões

15 10 2009

inglourious basterdsNo site Metacritic, que compila as avaliações dos principais críticos americanos, Bastardos Inglórios está com a média 69, bastante baixa para filmes de primeira linha. As opiniões que tenho lido e ouvido por aqui também são divididas. Lembram uma cena do filme, tipicamente tarantinesca: um oficial alemão e um dos “bastardos” mantêm pistolas apontadas para os respectivos testículos debaixo da mesa do bar. Para uns, é o melhor filme de Tarantino, uma aula de cinema e de história do cinema. Para outros, é o mais chato e gratuito superespetáculo da temporada.

Embora admire o estilo e a non-chalance do diretor para filmar o que lhe vier na cabeça, minha pistola está na mão da segunda turma.

Tarantino filma magnificamente – e isso fica claro seja numa mera conversa de dois personagens, seja numa cena estrepitosa como o incêndio na pré-estreia do filme nazista. O problema é a ausência de maior sentido para a fantasia multigêneros que ele tirou da cachola em Bastardos Inglórios. Tarantino me parece um garoto superdotado que, depois de fazer algumas obras de arte, cresceu e se pôs a atirar os brinquedos para o alto. Continue lendo





10 coisas que você não deve dizer ao apresentar a pré-estreia do seu filme

13 10 2009

“Essa cópia não é a definitiva. Ainda vamos fazer alguns ajustes de imagem e som.”

“Tentamos chegar a uma metragem menor, mas afinal não quisemos privar vocês de tanta coisa boa que filmamos.”

“Qualquer insuficiência da produção, relevem porque nosso orçamento foi mínimo.”

“Se vocês não entenderem algum diálogo, o problema é do som da sala.”

“Aliás, esse talvez não seja mesmo um filme para entender. Procurem sentir.”

“Meu filme tem sido injustiçado em vários festivais que não o selecionaram.”

“Trouxe aqui uma listinha de agradecimentos e apoios para não esquecer ninguém.”

“Agora quero chamar toda a equipe do filme para falar uma palavrinha.”

“Depois da projeção, teremos duas horas e meia disponíveis para um pequeno debate.”

(com expressão tensa e cansada) “Espero que vocês, assistindo, tenham o mesmo prazer que nós tivemos em fazer.”

Inspirado numa série de tiras de Claudio Paiva.





Les parapluies de Shibuya

11 10 2009

Diversão de domingo:

Quando visitei Tóquio, em 2002, parei para tomar um café no Starbucks do movimentadíssimo bairro de Shibuya. As mesas ficam no segundo andar, diante de uma parede de vidro sobre o principal cruzamento do bairro. Chovia fino, e as multidões de pedestres com seus guarda-chuvas formavam ondas em várias direções. Era espetacular. Gravei com minha MiniDV, não só do alto como também no meio da algaravia de gente e sombrinhas.

Um ano depois, era lançado o filme Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sophia Coppola. Lá estava o cruzamento de Shibuya, filmado justamente do janelão do Starbucks. Desde então, essas tomadas viraram um must dos videoturistas, como se pode ver no Youtube. Mas as minhas foram pioneiras, pelo menos em relação às de Sophia.

O título é uma referência a Les Parapluies de Cherbourg (Os Guarda-chuvas do Amor), de Jacques Demy (1964). A trilha sonora vem da compilação usada na montagem de Os Sete Afluentes do Rio Ota por Monique Gardenberg.  





“Vincere”, o fascismo como loucura

10 10 2009
Mussolini e Berlusconi

Mussolini e Berlusconi

Amigos me pediram que escrevesse sobre Vincere, o filme de Marco Bellocchio que passa amanhã (domingo), às 21h30, na última chance do Festival do Rio.

Atendo com prazer, pois foi um dos melhores que vi no festival. Detendo-se sobre um episódio pouco conhecido da era Mussolini – a rejeição do Duce a uma amante com quem teve um filho, e a persistente cruzada da mulher para obter o reconhecimento –, Bellocchio cobre três temas que são recorrentes em sua carreira: o sexo, a loucura e a história italiana. Continue lendo





A moda dos filmes de moda

9 10 2009

filme fashionEstão desfilando no CCBB-Rio os documentários da 4ª Mostra Filme Fashion. O Festival do Rio apresentou cinco títulos relacionados com o tema. Nos últimos anos, o cinema tem escrutinado os bastidores dessa artindústria com um apetite inversamente proporcional à anorexia das modelos. Valentino, Karl Lagerfeld, Coco Chanel, Marc Jacobs (Louis Vuitton), Leigh Bowery são alguns dos estilistas enfocados recentemente em docs e fics. Sem falar na editora Anna Wintour (ficcionalizada em O Diabo Veste Prada e documentada em Vogue: A Edição de Setembro) ou na fotógrafa Annie Leibovitz.

Nos EUA, o ator Chris Rock faz sucesso assinando a direção do doc Good Hair, sobre penteados afro-americanos. Enquanto isso, o penetrante Hair India jogou uma luz sobre o comércio internacional de cabelos humanos para perucas e apliques. Uma Moda Transgressora abriu uma fresta histórica para a moda underground na Alemanha comunista. Há dois anos, um nome quente como Jia Zhang-Ke, em Inútil, escolheu o assunto para falar das transformações vividas pela China. O Filme Fashion traz até um doc brasileiro dessa leva, Top Models – Um Conto de Fadas Brasileiro, de Richard Luiz.

Mas o que, afinal, essa nova moda dos filmes de moda veste por baixo?  Continue lendo





Horrores do Cine Glória

7 10 2009

Artur Xexeo, em sua coluna de hoje no Globo, faz menção ao “simpático Cine Glória”. Embora a ambiguidade do adjetivo não deixe muito claro o juízo, enviei-lhe o seguinte e-mail:

“Querido Xexeo, você acha mesmo “simpático” o Cine Glória? Você não sabe o que é ter de frequentar aquilo lá. 
Uma sala inacessível a portadores de deficiência (um problema no joelho torna a missão de subir e descer aquelas escadas quase impossível para mim).
Uma inclinação invertida (a tela é mais baixa que a plateia), o que inviabiliza as legendas e uma boa faixa inferior da tela se alguém se sentar na reta da sua cabeça. 
Um cinema que amiúde não tem água no bebedouro, nem café no “café”.
O ar condicionado ou está desligado, ou está congelando até pinguim.
E o pior de tudo: como gostam de passar vídeo em janela errada! Quando a gente reclama, o operador com cara de bobo só sabe dizer “é assim mesmo”.
Várias vezes já tive que desistir e subir as escadas pouco depois de começar a sessão.
Assim como todo mundo, só vou lá quando não tem outro jeito. O pessoal da Urca Filmes que me perdoe, mas aquilo é a cripta do cinema. Por mim, já teria fechado há muito tempo”.




Erótica Aventura

7 10 2009

(À l’Aventure)

Fic enganação. Dos três “estudos da sexualidade feminina” de Jean-Claude Brisseau, esse é o primeiro a que tenho oportunidade de assistir. Pois já chega. O engodo é duplo. De um lado, a bonitinha e insatisfeita Sandrine, em seus encontros iniciáticos, serve de ouvido intermediário para uma sucessão de explanações retóricas sobre a física do universo e a necessidade de ir fundo nas experiências para superar a rotina da vida. De outro, Sandrine se dispõe a participar de sessões de busca do prazer que passam do sexo grupal ao sado-masoquismo, à hipnose e à elevação mística, nessa ordem. Imagine tudo isso com atores, cenários e diálogos que mais parecem aqueles velhos filmes pornô em que as personagens conversavam “seriamente” antes de cair na safadeza. E aqui nem a safadeza tem integridade. O discurso de auto-ajuda encontra a exploração erótica soft. Salve-se quem puder. ●





Repescagem: a não perder

7 10 2009

A última chance do Festival do Rio este ano está melhor do que nunca. É praticamente um novo festival, de 9 a 15 de outubro, nas três salas do Espaço de Cinema. No total, 106 filmes.  

É claro que cada um já tem sua lista de preferências. Eu, por exemplo, não quero perder Doze Jurados e uma Sentença, do Nikita Mikhalkov, A Criada, e os docs Fúria e Cuba, uma Odisseia Africana.  

Dos que já vi, recomendo agendar os seguintes:

Vincere: um Bellocchio exuberante, operístico, em plena forma, mostrando que o fascismo é a doença mental da Itália. Uma maneira de comentar a era Berlusconi através dos tempos de Mussolini, o único louco na trama que não chegou a ser internado.  

E ainda (clique para ler as pocket reviews): As Praias de Agnès, Doce Perfume, A Doutrina de Choque, Ainda a Caminhar, Eu Matei a Minha Mãe, A Próxima Estação, Nollywood Babilônia, American Boy + American Prince, Hair India, Rachel, A China Continua Distante, O Menino e o Cavalo, O Mercado Os Tempos de Harvey Milk.

A lamentar, a ausência do belo intrigante 24 City, de Jia Zhang-Ke. Cheguei a chorar no Twitter por não ver na lista o extraordinário Mother, do coreano Bong Joon-ho, mas depois lembrei que este deve entar em cartaz.





American Boy + American Prince

7 10 2009

Docs figuraça. A reunião desses dois médias de Martin Scorsese e Tommy Pallotta traz à tona um personagem imperdível. Steven Prince, de biografia agitada e incrível talento para contar histórias, tem cenas de sua vida reproduzidas em Pulp Fiction e Waking Life, sem falar na inspiração que certamente exerceu sobre Scorsese. Este filmou seus relatos em 1977, num encontro doméstico que poucos conheciam. Pallotta o retomou 30 anos depois, como se a conversa apenas continuasse. Prince não mede palavras para contar seu envolvimento com homossexualismo, drogas e violência, nem para dar detalhes sobre a vida de amigos como Scorsese, Liza Minnelli e Robbie Robertson (The Band). Os dois filmes absorvem essa franqueza e abrem uma janela inesperada sobre o showbiz americano dos anos 1970 e 80. Ambos deixam transparecer a duvidosa felicidade de um doidão que, afinal de contas, não encontrou o seu lugar na ribalta. Steven Prince, ex-ator, ex-roadie de Neil Young e ex-figuraça de Hollywood, é hoje um empreiteiro da construção civil. Imagino que ainda venha por aí um longo baseado, digo um longa baseado em sua vida. ♦♦♦

Site de American Prince (com o filme inteiro)